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Como um dia de domingo

Nem mesmo as águas de março haviam invadido o nosso mês. Era um dia qualquer. Na agenda, 28 de fevereiro. E nem mesmo tinham …

Nem mesmo as águas de março haviam invadido o nosso mês. Era um dia qualquer. Na agenda, 28 de fevereiro. E nem mesmo tinham fechado o verão. A temperatura ultrapassava os 35 graus. Não era pau, nem pedra. Era tiro, grito e correria. Talvez o começo do fim do caminho. Ou um passo, uma ponte, um povo sozinho no meio da multidão. E a inauguração de um medo coletivo de se passear pelas ruas da cidade de dia. De levar o cachorro para seu exercício diário na praça mais próxima. De caminhar pelos parques de Porto Alegre para aproveitar aquele resto de sol bom da tardinha. De andar devagar e ser cidadão.

Tudo aconteceu em questão de minutos. Tudo ocorreu com platéia vestindo roupas de lazer. Tudo se passou diante de crianças que brincavam sob os olhos dos pais. Tudo teve a audiência daqueles que dividiam o mate amargo de mão em mão e escutavam no rádio o jogo entre Grêmio e Novo Hamburgo. Tudo na segurança de um parque, local público, sob a vigilância de quatro PMs fardados e dois à paisana do 9º BPM, responsável pela patrulha da Redenção. No coração verde do domingo de Porto Alegre. No espelho das águas que antecipava as lágrimas. No fundo, o chafariz ou a Fonte Luminosa da Redenção.

Uma briga de bondes. Gangues de adolescentes que tinham algo para resolver naquele domingo de sol. Guris que já freqüentavam a Redenção em finais de semanas anteriores em fevereiro e haviam parado apenas na provocação verbal. Mas não estavam satisfeitos. Adolescentes de 17, 16, 15, 14 anos que trocaram o futebol, o shopping, o pão adormecido, o convívio familiar forçado pelo dia do descanso semanal pela violência. E assustaram a população móvel e crescente da Redenção. E plantaram pânico na vizinhança do parque. E escreveram um novo e sangrento capítulo na escalada de Porto Alegre rumo à violência escancarada das grandes metrópoles.

Meninos que usaram o significado mais perverso da palavra rival. Garotos que provocam medo. Garotos que assustam. Garotos que se excedem. Garotos que interferem na vida de outros. Garotos que não resistem aos apelos e provocações. Garotos que matam. E mataram um jovem de 15 anos. E feriram pelo menos mais quatro adolescentes. Era só um dia de domingo.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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