Colunas

Conquista não se entrega

“Você ainda não sabe, o que cabe nesta paz,

Quando a gente abre as asas, nunca mais, nunca mais”

– Elton Saldanha

 

Eu nasci no início dos anos 70, no meio de uma ditadura militar. Nasci em um Brasil onde era preciso medir as palavras, onde determinados assuntos não podiam ser discutidos abertamente e onde discordar do regime podia significar muito mais do que simplesmente ter uma opinião diferente. Pessoas foram presas, torturadas, mortas e desapareceram. Famílias foram destruídas, filhos foram separados de seus pais, jornalistas foram censurados e canalhas que tinham algum tipo de ligação com o poder de então podiam acreditar que estavam acima da lei. Eu era criança quando tudo isso acontecia, mas cresci ouvindo histórias, percebendo o medo dos adultos (inclusive de professores que nos chamavam e pediam para que não falássemos sobre certos temas) e entendendo, ainda que aos poucos, que havia coisas que simplesmente não podiam ser ditas.

Fui adolescente durante o processo de abertura política e tive a oportunidade de acompanhar a transformação de um país que começava, lentamente, a recuperar aquilo que havia perdido. Vi o Brasil respirar novamente. Vi as pessoas voltarem a falar, a se organizar, a protestar, a discutir política sem precisar olhar para os lados antes de abrir a boca. E me tornei adulto dentro de uma liberdade que meus pais conheceram muito menos (meu pai realizou o sonho de votar para presidente, pela primeira vez, junto comigo). Talvez seja justamente por isso que eu tenha uma relação tão particular com a democracia. Para muitas pessoas de outras gerações, ela é uma palavra. Para mim, ela é uma experiência. Eu sei o que significa viver em um país onde o medo fazia parte da vida e sei também o que significa viver em um país onde posso escrever uma coluna como esta, criticar o governo, criticar a oposição, criticar o presidente, o Congresso, o Judiciário ou qualquer outra instituição sem precisar pedir autorização a ninguém. Posso inclusive escrever sobre os erros cometidos durante a ditadura e apontar responsabilidades históricas sem correr o risco de desaparecer por causa disso. Isso parece banal para quem nasceu depois da redemocratização, mas não é.

É justamente por isso que eu olho para a eleição que estamos prestes a viver com uma preocupação que vai muito além da escolha de um candidato ou de outro. Eu não sou fã de carteirinha do governo atual. Tenho críticas, discordâncias e certamente há decisões que eu faria de outra maneira. Mas existe uma diferença fundamental entre não gostar de um governo e acreditar que o sistema democrático que permite trocar esse governo deve ser preservado. Eu não tenho medo de que o governo atual transforme o Brasil em uma ditadura. Tenho, portanto, a tranquilidade de poder discordar dele dentro das regras de um Estado Democrático de Direito. E isso, para mim, é muito mais importante do que gostar ou não gostar de quem ocupa a cadeira naquele momento.

Democracia não significa concordar com o governo. Democracia significa justamente ter o direito de discordar dele. Significa poder fazer oposição, protestar, escrever, investigar, denunciar, votar contra, organizar uma manifestação, criar um partido, mudar de opinião e tentar convencer o outro de que estamos certos. E significa também aceitar que o outro tenha exatamente os mesmos direitos. É aí que está uma das maiores dificuldades do nosso tempo. A gente passou a confundir democracia com a obrigação de o resultado da democracia ser aquele que nós queremos. Quando o nosso candidato vence, celebramos as instituições. Quando perde, começamos a desconfiar delas. Quando uma decisão nos favorece, defendemos a Justiça. Quando nos contraria, questionamos a sua legitimidade. Esse comportamento, de todos os lados, é perigoso porque transforma a democracia em alguma coisa que só é boa quando nos dá razão.

Eu não acredito nisso. A democracia é boa justamente porque ela não garante que eu vou ganhar. Ela garante que eu posso continuar tentando. E essa diferença é enorme. Uma eleição democrática precisa permitir que eu perca e continue tendo o direito de participar da próxima. Precisa permitir que o meu adversário vença sem que eu seja perseguido por isso. Precisa permitir que eu critique quem venceu e, quatro anos depois, tente convencê-lo de que deve ser substituído. Esse ciclo, que parece tão simples, é uma das coisas mais sofisticadas que uma sociedade conseguiu construir.

Por isso também acho que esta eleição exige atenção especial à escolha dos senadores. O Senado não é apenas mais uma etapa da urna. O senador tem um papel importante na estrutura institucional do país e participa de decisões que podem influenciar profundamente o equilíbrio entre os Poderes. Em um momento em que Executivo, Legislativo e Judiciário vivem uma relação de enorme tensão, precisamos olhar para os candidatos não apenas pelas propostas que apresentam para a economia, a segurança, a saúde ou a educação, mas também pela maneira como enxergam as próprias instituições. É legítimo discordar de uma decisão judicial. É legítimo criticar o Congresso. É legítimo cobrar o presidente. O que precisamos observar é se, por trás desse discurso, existe o compromisso de preservar as regras que permitem que todas essas críticas continuem existindo.

Eu acredito que esse é um dos grandes temas desta eleição, inclusive no Rio Grande do Sul. Temos nomes fortes disputando posições importantes e cabe a cada eleitor olhar para suas histórias, suas posições e seus compromissos. E principalmente, quem apresenta propostas de evoluirmos como sociedade e quem simplesmente se candidata em uma missão de revanche contra decisões jurídicas, as quais o seu lado ideológico, considera erradas. Não cabe a mim dizer em quem alguém deve votar. O meu voto é minha responsabilidade, assim como o voto de cada um é responsabilidade de cada eleitor. O que eu gostaria é que ninguém tratasse essa escolha como uma simples torcida de futebol. Política não é campeonato. O adversário político não é inimigo. O brasileiro que vota diferente de mim não é menos brasileiro, não é menos inteligente, não é menos patriota e não tem menos direito de escolher os rumos do país.

Aliás, talvez essa seja uma das coisas mais importantes que precisamos reaprender. Meu voto não vale mais porque eu tenho mais condições financeiras ou porque sou homem. Não vale mais porque tive a oportunidade de estudar em instituições melhores. Não vale mais porque acompanho política há mais tempo. Não vale mais porque acredito que conheço melhor os problemas do país. O voto de uma mulher vale exatamente o mesmo que o meu. O voto de quem tem pouco dinheiro vale exatamente o mesmo que o meu. O voto de quem mora na periferia vale exatamente o mesmo que o meu. O voto de quem não teve oportunidade de estudar vale exatamente o mesmo que o meu. E o voto de quem pensa o oposto de mim também vale exatamente o mesmo. É isso que significa democracia. Se eu quero preservar o meu direito de escolher, preciso necessariamente respeitar o direito do outro de escolher diferente.

Nós temos, portanto, uma responsabilidade que vai muito além do próximo domingo. Temos a obrigação de votar, mas temos também a obrigação de acompanhar aqueles que forem eleitos. Cobrar suas promessas, acompanhar suas decisões, denunciar seus erros e reconhecer seus acertos. A democracia não termina quando depositamos nosso voto na urna. Talvez seja justamente ali que comece a parte mais importante dela. Porque escolher alguém para nos representar não significa entregar a essa pessoa um cheque em branco.

Eu não sou ingênuo a ponto de acreditar que a democracia brasileira não tenha equívocos. Estamos atravessando uma crise institucional séria, com conflitos e desconfianças envolvendo os três Poderes, com uma sociedade profundamente dividida e com uma dificuldade cada vez maior de conversar com quem pensa diferente. Mas a saída para esses problemas não está em abandonar a democracia. Está em fortalecê-la. Está em cobrar instituições melhores, representantes melhores, uma imprensa livre, transparência, responsabilidade e respeito às regras. Está em entender que democracia não é um sistema criado para impedir que as pessoas cometam erros. É um sistema criado para permitir que os erros possam ser corrigidos sem que, para isso, seja necessário destruir a liberdade.

Eu cresci vendo um país que tinha medo. Vi depois esse país começar a se abrir e, pouco a pouco, recuperar a capacidade de escolher seus próprios caminhos. Hoje eu posso escrever tudo isso. Posso dizer que discordo de um governo. Posso criticar um político. Posso defender outro. Posso ir para a rua protestar. Posso votar. Posso perder. Posso ganhar. E, principalmente, posso continuar fazendo tudo isso depois da eleição. É isso que eu quero preservar.

Não existe ditadura boa, independente do lado ideológico que ela apresente. Toda ditadura começa exatamente quando alguém decide que a própria visão de mundo é tão superior que o restante da sociedade não merece mais escolher. E eu não quero viver em um país assim. Já vivi perto demais de um Brasil onde isso era possível.

Por isso, no próximo domingo, eu vou fazer aquilo que considero uma das maiores conquistas da minha geração: vou votar. Cada um fará sua escolha, de acordo com sua consciência, suas convicções e sua leitura do país. Espero apenas que todos compreendam o tamanho da responsabilidade que existe naquele gesto aparentemente simples diante da urna. Que votem, que respeitem quem votar diferente e que, depois do resultado, continuem defendendo o direito de todos nós participarmos da construção do Brasil. Que não surtem em frente a quartéis pedindo intervenção de quem nunca soube lidar com a liberdade individual da sociedade.

Que seja uma grande festa da democracia. Que a gente possa sair das urnas com nossas diferenças, nossas convicções e nossas divergências, mas também com a certeza de que continuamos vivendo em um país onde o poder, no fim das contas, precisa voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído: para as mãos do povo.

Porque, para quem nasceu no meio de uma ditadura, democracia não é uma abstração. É uma conquista. E conquista a gente não entrega, a gente mantém, pagando o preço que for necessário pagar.

Autor

Fernando Puhlmann

Sócio-cofundador da Cuentos y Circo, Puhlmann é um dos principais especialistas em YouTube do país, com um olhar focado em possibilidades de faturamento na plataforma e uma larga experiência em relacionamento com grandes marcas do mercado de entretenimento. Além de diretor de Novos Negócios da CyC, tem também no seu currículo vários canais no país, entre eles o do escritor Augusto Cury, do Gov Eduardo Leite, Natália Beauty e do Grêmio FBPA, sempre atuando como responsável pela estratégia de crescimento orgânico dos canais. Já realizou palestras sobre a nova Comunicação juntamente com diretores do YouTube Brasil como a abertura do 28º SET Universitário da Famecos-PUCRS, o YouPIX/SP e o Workshop YouTube Gaming Porto Alegre. Desde 2013, Puhlmann ministra cursos, seminários e oficinas sobre YouTube, tendo mentorado mais de 30 canais nos últimos anos.
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