Na hora do consomé meditamos: consumimos o tempo e o tempo nos consome. O caldo da vida vai do ralo até que engrossa. Fica tão espesso que mal passa pelo tubo endogástrico dos doentes terminais. Não é sopa, a existência. Aos poucos, dos banquetes memoráveis à comida caseira inesquecível, circulamos por buffês inexpressivos e nos sujeitamos às dietas expressas. Até que chegamos ao soro na veia, ou, ainda antes, ao cafezinho na câmara ardente de quem já parou de ingerir nutrientes parenterais. Na verdade, as perdas vão sendo contabilizadas a partir de cadeiras Sobram talheres sem uso, enquanto mãos seguram velas, a iluminar Vamos reparando em lacunas de toda a sorte, tipo um menu de ausências onde não se pode mais escolher com quem queremos estar, por mais necessitados que estejamos deste ou desta ou daqueles. Vão-se pais, irmãos, amigos, vizinhos, grupos que se desfazem na escuridão do sumiço coletivo. A divisão dos comes e bebes fica indivisível, um cálculo malfeito de vínculos desfeitos. Acaba-se com o olhar perdido, com o risco da xícara partir-se no ar, em cacos saudosos. Enumera-se o perfilar de dias e fica-se órfão por meses a fio, de luto ano após ano, uma contagem infinita de dores que nem machucam mais – é só uma insuportável contabilidade temporal. Assim cozinhamos o passar do tempo, que começa na fervura juvenil virar este banho-maria que chamam velhice. Então, requentados de tantas faltas, ruminamos a nós mesmos. E murmuramos a nossa própria contagem. Viver é mastigar o que passou até nada mais passar. (Em memória de D. Vera Batsow, anfitriã afetiva, e de seu Manuel Rodrigues, que compartilhava tudo que podia.) |

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