Colunas

Conversas com o lixo

Ando conversando com o lixo. Não, não enlouqueci. É que ele anda tão presente na minha vida que posso considerar que estamos conversando. Ele …

Ando conversando com o lixo. Não, não enlouqueci. É que ele anda tão presente na minha vida que posso considerar que estamos conversando. Ele está nas ruas, está sendo jogado pela janela dos carros, está na frente dos prédios. Enfim, está onipresente, quase um deus.

Quando uma pessoa joga lixo pela janela do seu carro ou mesmo na rua (esta cena, de gente jogando lixo na rua, é extremamente comum), recebo algumas mensagens: a de que é uma pessoa mal educada, naturalmente; a de que estou em uma cidade onde as pessoas não têm respeito por si mesmas e tampouco pelos demais cidadãos; a de que estou em uma cidade feia e suja; a de que é uma terra de ninguém, pois isto ocorre a todo momento sem que haja qualquer punição.

Quando vejo o lixo na frente dos prédios, envolvido em sacos plásticos, fico pensando qual seria a forma ideal de fazer com que os resíduos fossem embalados ou mesmo eliminados, sem esta solução tão prosaica. Naturalmente que mendigos, catadores, cachorros e gatos acabam por rasgar os sacos e o lixo se espalha. Entope bueiros, polui as ruas.

O poder público colocou os contêineres, para que os cidadãos possam ter uma alternativa de descarte de resíduos. Funciona em parte. Primeiro, porque são alguns bairros de Porto Alegre que têm contêineres. Segundo, porque eles não são esvaziados com uma frequência satisfatória (muitos deles estão cheios). E, por fim, estes não são higienizados da forma que devem. Em breve, se transformarão em focos de baratas e ratos, caso não haja uma higiene razoável. Isto me comunica que talvez o poder público não considere a questão do lixo como algo tão relevante como eu.

Há muitos bairros em Porto Alegre (não posso afirmar que sejam todos, pois não circulo em todos os bairros) em que há verdadeiras ilhas de lixo. Os moradores vão depositando sacolas de lixo, sofás, poltronas, computadores, toda a sorte de lixo. Mas o que é pior e mais incompreensível: são eles mesmos os primeiros a circularem entre este lixo. Me pergunto: não se importam em ter o lixo por vizinho, que suja, é foco de doenças e enfeia a paisagem? Não se importam que seus filhos circulem no meio da sujeira, candidatando-se a pegarem doenças?

Não há mais como usar a desculpa de que falta informação. A informação sobre o lixo, algumas campanhas de conscientização e mesmo postura são veiculados na mídia de massa. E com relativa frequência. Mas o que há com um povo que não se incomoda em fazer das ruas um grande depósito de lixo? E o que há com o poder público, que não se mobiliza de forma mais efetiva e radical para solucionar esta questão? Gostaria de encerrar este meu diálogo com o lixo, mas parece que a conversa ainda vai ser longa.

Autor

Flavio Paiva

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.