
“Relembrar é ir em busca de
uma felicidade atrasada”.
Manuel Bandeira.
Os homens do tempo de antigamente diziam que sabiam prever mudanças do clima ao sentir os ossos doerem no meio da noite. Mas meu avô, o coronel Picurra, tinha um jeito muito próprio, um tanto misterioso mas que sempre dava certo. Ainda lembro de sua figura no meio do campo, com a mão em pala, olhando as nuvens correndo pelo céu.
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Eu era um guri novo, criado na cidade e que sempre estava interrogando os adultos, para tentar entender os costumes campeiros. Em uma manhã, a curiosidade bateu forte e fui até a avó Ana Augusta perguntar porque o avô Patricio ficava ollhando para o céu. Ela não respondeu de pronto, mexeu nas panelas no fogão, limpou as mãos gorduchas no avental e falou:
“Teu avô ‘tá conversando com o vento”.
Não entendei o que ela quis dizer. Saí e fui até os galpões procurando pelo negro Edu. Ele era o peão mais antigo da fazenda; vivia ali desde criança, alimentado só com leite e carne de ovelha. Até diziam que conhecia certos segredos que os outros nem imaginavam. Seu divertimento, entreter criancas com estórias, que eu achava mais interessantes do que as dos livros de contos infantis. Mas Edu não gostava de falar da vida do coronel Picurra – fingia um ataque de tosse para esconder as emoções.
Mas naquele dia, o velho peão estava de língua solta. Falou que o costume de ouvir a natureza era muito antigo e vinha dos índios tapes. E que falar com ventos e passarinhos era uma mandinga que o coronel aprendera com o cacique que vivia nos areais da Lagoa dos Patos.
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Notei que o Edu ficou calado por um tempo, como se voltasse para os dias de guri desmamado. Quando retomou, contou que o coronel olhava em que direção as nuvens corriam e de que forma ficavam – de ovelhas pastando ou de fiapos de algodão. Falou mais ainda, que o avô aprendera como curar cordeiros e acalmar chucros, assoprando em suas orelhas. Vendo minha cara de descrente, se benzeu e jurou que uma vez viu como o coronel curava bicheira de ovelhas usando água da vertente. Não acreditei nada do que o Edu contava. Sabia que deviam ser estórias para impressionar inocentes como eu. Até que aconteceu uma perturbação que me deixou intrigado de vez.
Foi em uma manhã de verão, quando vi meu avô andar até a várzea grande. Olhava para os bandos de andorinhas que disparavam de um lado para outro no céu sem nuvens. Um carancho pousou na figueira do terreiro e grasnou alto, uma, duas, três vezes. O avô voltou a passos largos, disse alguma coisa para os peões e entrou em casa. Nos minutos seguintes, portas e janelas foram fechadas e peões levaram os cavalos para as cocheiras. Alguma coisa estava para acontecer.
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Começou um vento forte que fez ondular os eucaliptos da estrada, cobrindo o chão com folhas e galhos. O céu escureceu e começou o temporal, com uma chuvarada que ressoava nos telhado. As mulheres correram para acalmar a criançada, enquanto os homens tomavam mate ao redor do fogão aceso falavando baixinho. Enquanto isso acontecia, notei o avô lendo tranquilamente seu almanaque do Eu Sei Tudo.
Menos de uma hora depois, ele entrou na cozinha e avisou que o temporal já ia embora. Ninguém disse nada, ouvindo a chuva batendo forte. Ficamos olhando, quando ele foi até a sala da frente, tirou a tranca, abriu as duas folhas da porta e ficou esperando a chuvarada passar. Em poucos minutos, as nuvens se abriram e résteas de sol iluminaram o campo encharcado. Portas e janelas foram abertas, mulheres enxugavam as goteiras no chão e os homens foram ver os estragos.
Quando corremos para a rua, brincar nas poças d’água, vimos a festa dos bichos, com cachorros rolando na grama molhada e cavalos relinchando felizes nas cocheiras. Procurei em vão pelo carancho, mas ele não estava lá.
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