Coopítulo 10 - Gente que sabe fazer

Por José Antonio Vieira da Cunha

Mesmo uma cooperativa de jornalistas não se faz só com eles, certo? Aquele pessoal que dá o suporte e garante que um trabalho bem elaborado tenha continuidade estava lá na Coojornal desde sempre. O pioneiro foi Carlos Milton de Gós Rios, o Carlão. Produtor, iniciou cuidando da parte gráfica da primeira publicação, o Jornal do Inter. No início, driblava dificuldades no enfrentamento com gráficas e fornecedores em geral exatamente porque o trabalho era então de uma pequena empresa e, o que agravava a percepção dos terceiros, de uma cooperativa praticamente desconhecida. 

Não por acaso, foi um dos que mais exultou quando, dois anos depois de sua criação, a Coojornal adquiriu um equipamento de fotocomposição e fotolito. Com isso foi estruturado seu próprio núcleo industrial, um desafio que há meses buscávamos atingir porque, ao editar 17 diferentes publicações naquela época, entendíamos imprescindível dominar todo o processo de produção e reduzir ao máximo a dependência de terceiros. Conseguimos: para o ciclo ser completo, só faltaria a etapa da impressão, voo muito mais alto que quase atingimos.

E não foi fácil adquirir aquela estrutura industrial. Após longas negociações com a agência regional do então BNCC, o Banco Nacional de Crédito Cooperativo, Jorge Polydoro e eu fomos a Brasília 'vender' a ideia na matriz. Caímos na sala de um dos diretores do banco, Norberto, um cidadão com pouco mais de 50 anos, atencioso e gentil como poucos. O que nos surpreendeu ainda mais quando soubemos que não só era primo do presidente Ernesto Geisel como cuidava da contabilidade do general.

O executivo foi sensível ao ouvir nossa sustentação básica: se um produtor rural cooperativado oferecia como garantia suas terras e a produção agrícola nela obtida, nós jornalistas tínhamos como bem maior nosso produto intelectual. Que levava uma vantagem em relação ao homem do campo: podíamos levar este 'bem' onde quer que estivéssemos... A questão material foi resolvida ao darmos como garantia notas promissórias assinadas pelos associados, em uma chamada de capital feita exatamente com esta finalidade.

Eram centenas de NPs, pois o valor subscrito por cada associado foi distribuído em longas parcelas. Na confiança, todos preencheram apenas o valor e assinaram; era necessário completar os demais itens do documento, como nome completo, valor por extenso, data, local, essas coisas todas. Quando um jovem, passando pela Rua Comendador Coruja, bateu na sede da cooperativa à procura de trabalho e disse que sabia fazer de tudo, o gerente perguntou: E datilografar, também? Com a resposta positiva, foi contratado e imediatamente sentou-se à frente de uma olivetti elétrica. Missão cumprida, cresceu na estrutura interna e acabou coordenador do Departamento de Circulação. O garoto chamava-se Carlos Wagner e, com o que aprendeu vivência no Coojornal, mais seu talento e senso de responsabilidade, viria a tornar-se um dos mais premiados jornalistas do Rio Grande do Sul.

"Carlão, tem boca na cooperativa?" foi a frase que nosso produtor passou a ouvir por onde passava, quando a fase industrial se consolidou. Das contas e das cobranças cuidava o Eládio, meu irmão, que fui resgatar em Cachoeira do Sul quando tivemos a necessidade de ter um profissional qualificado e de confiança. Ia tomar posse como secretário municipal de Planejamento em nossa cidade natal, mas soube convencê-lo de que a proposta que eu levava era muito mais desafiadora e enriquecedora. "Me interessei pela coisa", ele diria depois. "Tinha terminado o curso de Administração de Empresas e vi a possibilidade de aliar meus conhecimentos ao jornalismo. Topei e avisei o prefeito que havia desistido do cargo." 

Enfrentou um começo difícil, em março de 1975. Achou que tinha muita papelada, muitos débitos e poucos créditos. "Nos primeiros dias fiquei parado olhando para as pessoas sem fazer nada. Tinha um tijolo dentro do estômago." Mas logo se apaixonou pela ideia, convenceu-se de que ali havia um futuro e, "apesar dos pepinos", soube zelar pelas finanças e o equilíbrio econômico durante o período em que esteve por lá.

Na área comercial, o esteio era dado pelo publicitário Gabriel Mathias, outro que começou quase do zero: encontrou uma estrutura mínima que comercializava o Jornal do Inter, e teve de se preparar para comercializar espaços também para o Jornal do Grêmio - sim, os dois conviviam harmonicamente na cooperativa, cada um com sua redação, como veremos em outro momento -, a revista Agricultura & Cooperativismo e o próprio Coojornal, claro.

Tinha duas pedreiras para vencer. Uma, o desconhecimento em geral do meio publicitário sobre o Coojornal, aliado ao fato de ser um veículo da imprensa alternativa. Outra, a acomodação dos mídias - já naquela época... -, que davam atenção especial às duas grandes empresas jornalísticas de então, Caldas Júnior e RBS. Mathias, profissional que viera do mercado publicitário, relatou que seus colegas demoraram muito para reconhecer a Cooperativa dos Jornalistas como empresa séria. 

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Inúmeros bons profissionais passaram pelos corredores das duas casas da Comendador Coruja que abrigaram a Coojornal. Tinha o Chico Alba, gerente do núcleo industrial que buscamos na poderosa Gráfica Editora Pallotti. Tinha a Marli na contabilidade, uma grandalhona ciosa e detalhista como todo profissional desta área. Difícil fazer citações aqui sem cometer as injustiças de sempre, mas não será esquecida jamais a dona Leocádia, a simpática senhora que, eternamente sorridente, tratava de deixar tudo limpo. E o melhor é que era uma cozinheira de mão cheia que achava tempo para cozinhar diariamente para a turma, geralmente um prato único, tipo arroz com galinha. Era o almoço mais barato e certamente o mais gostoso servido no bairro Floresta.

A rua que abrigou a cooperativa durante toda sua trajetória

Crédito: Leonid Uda Streliaev

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à Agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo (de Cachoeira do Sul), a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. E tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há quase 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem três netos.

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