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Coopítulo 106 – Um primeiro racha

Era de dificuldades, mas positivo e dinâmico o momento da Cooperativa dos Jornalistas em maio de 1978, quando houve eleições para renovação da diretoria. O Coojornal havia se tornado em uma frente, uma referência de jornalismo independente e crítico, e não tardou para atiçar vaidades e cobiças. Havíamos criado um modelo buscando a autogestão, e tivemos uma grande contribuição na resposta dos colegas e da sociedade.

Resistência democrática e jornalismo independente eram os dois balizadores: os fundadores da cooperativa tinham como principal afinidade a rejeição à censura do regime militar e a busca por uma independência editorial acima de interesses empresariais ou partidários. No entanto, desde o início já aflorou um racha. Uma ala majoritária defendia a administração e espírito da cooperativa como um ente profissional, zeloso para com o relacionamento com os clientes e capaz de oferecer renda e oportunidades a seus integrantes. Outra ala lutava pela implantação de um posicionamento político com forte e explícita oposição ao regime militar. 

Na época de fundação da Coojornal, a imprensa estava dando dribles na censura e começava-se a falar em abertura do regime, mas os jornais pareciam acomodados, com as exceções da regra. A simples menção ao nome do ex-governador Leonel Brizola, para ficar em apenas um exemplo, era proibida, e os meios de comunicação acabaram se adaptando a essa condição. Agiam como avestruzes, uma metáfora muito adequada para os que ignoravam e até mesmo negavam problemas óbvios que o país enfrentava.

Tínhamos identificado que havia uma vontade da sociedade em se informar sobre certos assuntos, e tentamos abordá-los com cuidado para não atrair a censura. Ao mesmo tempo, nos preocupávamos em evitar a também detestável autocensura.

“O Coojornal só foi o que foi porque não era uma atitude ideológica nem financeira, era uma atitude diante da repressão”, diria mais tarde Jorge Polydoro, que foi editor gráfico das publicações da cooperativa e seu superintendente durante os primeiros anos. “O radicalismo interno foi tão ruim para a cooperativa quanto a ação externa dos militares. O confronto ideológico fragilizou a entidade”, refletiu, ao avaliar a crise que iniciou um processo de enfraquecimento do projeto da cooperativa.

A chapa de situação venceu para um mandato de mais dois anos, mas nunca mais a Coojornal seria a mesma. Agudizou-se ali uma verdadeira luta interna pelo poder que culminou trazendo um desgaste tremendo – pessoas talentosas se afastaram, em uma perda irrecuperável. Pouco a pouco, os pioneiros fundadores foram se distanciando também, e a partir do segundo semestre de 1980 se acentuou o declínio. Foi uma lenta e dolorosa trajetória até meados de 1983, quando a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre fechou definitivamente suas portas.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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