No segundo semestre de 1978, a Cooperativa dos Jornalistas vivia dias de intensa efervescência. Os associados compareciam em peso, envolvidos tanto no trabalho cotidiano quanto nos eventos e assembleias da entidade. Houve ocasião em que duas assembleias foram realizadas em sábados consecutivos. Conseguir reunir uma centena de jornalistas numa manhã de fim de semana já seria motivo de admiração em qualquer circunstância. Naquele ambiente de participação intensa, porém, até mesmo esse feito encontrava quem o criticasse…
O jornalista Danilo Ucha participou do movimento desde o seu início, inclusive sendo conselheiro fiscal em determinado momento, mas marcou sempre uma posição crítica ao que considerava um espírito de “democratismo” a nortear as decisões da entidade. Ele questionava muito o modelo cooperativista por não funcionar como empresa, a ponto de exigir, na sua visão, longas assembleias para “a tomada de qualquer decisão”. “Numa empresa todos trabalham e ganham por isso”, registrava ele, enquanto na Coojornal “chegamos ao ponto de apenas 60 trabalharem e 250 apenas investirem nela, sem trabalhar”.
É verdade que em certos momentos longas discussões avaliavam os próximos passos ou decisões consideradas relevantes. Mas a cooperativa era diferenciada mesmo, e estimular debates internos despontava entre os princípios básicos seguidos pela diretoria que liderei.
Mesmo a contratação de serviços com novos clientes era debatida no Conselho Editorial, e o caso da Borregaard foi o mais característico. Atual CMPC Brasil e uma das principais produtoras de celulose no país, a empresa infernizou a vida dos vizinhos, especialmente moradores de Guaíba e de Porto Alegre, com o odor nauseante dos gases que emanava fruto da absoluta falta de controle ambiental do equipamento original instalado pelos donos noruegueses.
O marketing da empresa procurou o comercial da cooperativa para propor a edição de um veículo de informações direcionado para o público externo. A proposta foi levada ao conselho, que dedicou mais de duas horas ao seu exame. Se aprovada, traria uma receita adicional muito bem-vinda. Mas, ao fim e ao cabo, no entendimento unânime do grupo, não havia dúvida nenhuma de que a Borregaard procurava aquele ambiente formado exclusivamente por jornalistas como uma estratégia para tentar limpar a péssima imagem junto à opinião pública. A proposta foi rejeitada por unanimidade.
Tal participação nos debates internos era cláusula pétrea para os associados que atuavam nos diversos setores da Coojornal. Foi Jorge Polydoro quem apontou que muitas vezes esta estrutura democrática trazia dificuldades para a busca de uma gestão eficiente, já que a obrigação de submeter decisões à apreciação de assembleias atrasa ações e estratégias que dependem de agilidade. Mas fazer o quê? Impossível fugir da evidência, a democracia estava na essência do organismo que fora criado com tanto entusiasmo e invejável esperança.


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