Dez de maio de 1979 está entre as datas mais marcantes na trajetória da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre. Foi quando começou a circular a primeira edição de O Rio Grande, o semanário que a Coojornal idealizou para ter uma publicação com um olhar atento e curioso para com as coisas do Rio Grande do Sul.
O ato de lançamento, às 19h na Assembleia Legislativa do Estado, teve uma participação solidária de associados e de dezenas de convidados. O prestígio foi total, a começar pelo governador Amaral de Souza e pelo presidente do Legislativo, Algir Lorenzon. A presença destes dois personagens, ambos do partido apoiador do regime ditatorial, a Arena, não deixa de ser interessante. Maio de 1979 estava no início do governo de Amaral de Souza, e apenas dois meses após a posse do presidente João Figueiredo. O país vivia o início do processo de abertura política, e muitos episódios tenebrosos ainda aconteceriam nos anos seguintes.
O semanário foi fruto de um extenso processo de debates internos e estudos e tema central de uma movimentada assembleia geral dos associados em setembro de 1978. Já na premissa inicial o entendimento indicava que a linha editorial seria desenvolvida gradualmente, pelo próprio grupo que executaria o jornal, considerando suas experiências e apostando na evolução profissional da equipe.
Sua redação deveria seguir três princípios básicos. O primeiro exigia a adesão incondicional ao cooperativismo e a defesa desta forma de organização empresarial. O segundo implicava em um comprometimento claro e honesto aos rituais democráticos, levando em consideração que este sistema embute a forma mais elevada de convivência política e social. E o terceiro demandava a adesão aos princípios do jornalismo profissional, a começar pelo compromisso com a verdade, fidelidade ao pensamento das fontes e a aceitação do contraditório.
Mais adiante, o manifesto enfatizava o perfil democrático e de participação que o semanário deveria seguir:
— Um jornal que adote estes princípios deverá ser necessariamente aberto, indagativo, internamente democrático, correto e independente. Ele não estará à margem da sociedade, mas será seu espelho, muitas vezes seu crítico e também o defensor dos princípios básicos que foram conquistas da humanidade. Será desta forma que o semanário da cooperativa conquistará a credibilidade e a influência.
Em seguida, desfiou-se outro princípio basilar: o jornal se dedicará a desenvolver um trabalho levando em conta que uma imprensa realmente livre necessariamente não será dogmática e não estará atrelada a qualquer movimento político partidário.
O marco inicial repousa em julho de 1978, quando o Conselho de Administração da cooperativa criou uma comissão com a responsabilidade de desenvolver e coordenar o projeto de execução e lançamento do semanário. Era formada por profissionais experientes e reconhecidos no mercado: Luiz Cláudio Cunha, como representante do Conselho; Hélio Gama, como representante do Conselho Fiscal; Osmar Trindade, então vice-presidente da entidade e coordenador do Departamento de Jornalismo; Elmar Bones da Costa, editor do Coojornal; e Jorge Polydoro, então diretor-superintendente.
O quinteto se debruçou na avaliação do Plano Inicial apresentado aos associados na assembleia geral, esboço de um modelo teórico em que se identificava uma situação de equilíbrio entre o que custaria o projeto e sua receita estimada. A redação iniciaria com 15 profissionais e admitia-se a possibilidade de chegar a 25, desde que atingisse o crescimento esperado. O setor industrial da cooperativa seria turbinado com mais trabalhadores para a área gráfica. O Departamento de Circulação, que cuidava exclusivamente do Coojornal, seria encorpado, passando de três para nove funcionários. Administração e Comercial também cresceriam em pessoal e atribuições.
A expectativa pela criação do jornal era grande, o entusiasmo maior ainda, a ponto de a assembleia do início de setembro admitir que o semanário poderia começar a circular já no mês seguinte. Mas a comissão, pés no chão, encerrou sua tarefa com a recomendação de que o projeto precisaria de pelo menos um semestre para ser maturado. Havia muitas lacunas e algumas deficiências que explicavam o adiamento.
Os setores de apoio, como Administração, Comercial e Circulação precisavam todos de tempo para se adequar à nova realidade e às exigências que o semanário traria, impactando toda a estrutura. Até o espaço físico da cooperativa precisaria ser adequado.
Provocada pelo gerente administrativo, Eládio Vieira da Cunha, a viabilidade econômica do projeto deveria ser melhor avaliada e estruturada. Sem novas receitas, advogava Eládio, a cooperativa não teria condições de suportar as exigências futuras. A comissão foi a fundo e entendeu que a viabilidade econômica do projeto estava diretamente ligada à capacidade de captação de recursos da cooperativa. Foram analisadas várias opções que incluíam a contratação de empréstimos e capitalização com novas subscrições por parte dos associados. A receita estaria vinculada, claro, à venda antecipada de assinaturas e de programações de anúncios, e isso demandava tempo para ser estruturado.
A comissão identificou uma dificuldade adicional a retardar o lançamento do jornal: o segundo semestre de 1978 era período eleitoral, com votação para os parlamentos e os executivos estaduais. No entendimento do grupo, as dificuldades conjunturais que envolvem o período de transição política no país não seriam propícias a negócios na área financeira para lançamento de produtos editoriais.
Tudo isso somado, a conclusão óbvia foi de que o mais conveniente seria deixar o lançamento de O Rio Grande para o ano seguinte O que foi feito.
(Continua)


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