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Coopítulo 111 – Um semanário na história (II)

As turbulências vividas por O Rio Grande e já relatadas neste espaço estiveram no centro de uma histórica assembleia geral realizada no final de setembro de 1979. Iniciada na noite de 27, só terminou três dias depois devido aos debates a respeito da trajetória do semanário. Contou com 81 associados que, no primeiro dia, aprovaram as contas da Cooperativa dos Jornalistas apresentadas pela gestão. Só não houve unanimidade porque foi registrado um solitário voto contra.

Um novo Conselho Fiscal foi aprovado por aclamação: tinha Agnese Schiffino, Danilo da Silva Ucha e Carlos Urbim como titulares, e Rafael Guimaraens, Fernando Goulart e Renato Pinto da Silva na suplência.

A proposta de trabalho apresentada pela diretoria também foi aprovada sem restrições e previa a continuação do desenvolvimento das atividades de jornalismo próprio, a reestruturação da área de prestação de serviços para terceiros e a reativação das atividades da agência de notícias, que equivocadamente fora interrompida para atender às exigências do semanário.

Restava um tema relevante e polêmico, a análise do desempenho de O Rio Grande. A noite se aproximava da madrugada e os associados optaram por interromper a assembleia, não sem antes constituir uma comissão para aprofundar a análise da situação do jornal que estava circulando desde maio.

O grupo foi formado pelos membros do Conselho de Administração e uma comissão de cinco associados. O debate era delicado e opressivo ao mesmo tempo, pois implicava em decidir sobre a continuidade ou não do semanário. Considerando que estava apresentando um prejuízo médio mensal de 550 mil cruzeiros, um valor absurdo, correspondente a cerca de 200 salários mínimos, não havia muito o que discutir. Apresentada a dura realidade aos associados na noite de 30 de setembro, apenas três discordaram da decisão inevitável pela suspensão de circulação de O Rio Grande

A jornalista Rosvita Saueressig acumulava a chefia de reportagem do jornal com a gestão da Central de Produção da cooperativa, o setor que produzia serviços editoriais para terceiros. Ela concluiu que o fim do O Rio Grande pode ser atribuído em parte à falta de capital de giro que permitisse ao semanário sustentar-se mais um pouco, enquanto se processavam as mudanças internas indispensáveis para que ele se firmasse junto ao público leitor. 

Osmar Trindade era vice-presidente da cooperativa neste período (iria ser eleito presidente no ano seguinte) de lançamento de O Rio Grande, maio de 1979, e um de seus mais entusiastas defensores. Era o editor do semanário e, diante das dificuldades enfrentadas desde o início, seguia sendo otimista. Também vencido pelas evidências do mau desempenho do jornal, rendeu-se lutando. Em uma entrevista para o boletim interno da cooperativa, defendeu seu entendimento assim:

— Apesar de tudo, o jornal progressivamente estava formando o seu leitor. Nas áreas onde ele atuava com maior desenvoltura, porque tinha pessoal eficiente trabalhando sempre, como polícia, justiça, direitos humanos, questões sindicais e sociais em geral, sentia-se a presença do jornal. Se você vende quatro mil ou cinco mil exemplares de uma publicação, em torno da qual nunca se fez praticamente nada para promovê-la, e se o número de leitores aumenta progressivamente, é evidente que uma boa parte da chamada receita do jornal está pronta.

Infelizmente, não foi o que aconteceu. Os estudos iniciais do projeto indicavam que o resultado seria positivo se o semanário comercializasse o equivalente a duas páginas publicitárias e vendesse cinco mil exemplares por edição. A média em sua efêmera existência foi de meia página publicitária por edição e cerca de dois mil exemplares vendidos em banca (o mesmo número que vendera na primeira edição somente na Grande Porto Alegre, sem contar assinaturas nem a venda no interior). Era claramente uma receita insuficiente para cobrir os custos, mesmo que estes fossem mínimos. E isso foi determinante para o fim de O Rio Grande.

Em sua última edição, em 7 de novembro de 1979, o jornal teve a grandeza de informar sobre seu fechamento em uma Nota aos Leitores, relatando de forma transparente as razões que levaram à decisão. A nota é rica em detalhes, tanto que vou tratar dela em próxima coluna.  

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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