Colunas

Coopítulo 112 – Um semanário na história (III)

Ao resgatar a trajetória do semanário O Rio Grande, em coluna anterior, resgatei a grandeza que o jornal teve ao registrar, em 7 de novembro de 1979, que aquela era sua última edição. Relatava, de forma transparente, os motivos que levaram à decisão. A nota é rica em detalhes, começando por detalhar que o jornal teve sua circulação suspensa por decisão tomada em assembleia geral dos associados da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre no dia 30 de outubro.

A razão principal não era surpresa para cooperativados e funcionários: custos elevados e receitas baixas, provocando um desequilíbrio econômico insustentável a curto prazo. A nota dirigida “Aos leitores” admitia que, ao ser lançado seis meses antes, a previsão indicava ser necessário investir na publicação durante “um longo tempo”, até que se afirmasse junto aos leitores e anunciantes. “Mas as pressões que se desencadeiam sobre qualquer tentativa de implantação de um órgão independente hoje no Brasil são insustentáveis”, adiantava a nota. “E o resultado é que o jornal tem um desempenho financeiro muito aquém do que esperávamos.”

A venda avulsa entre 4 e 5 mil exemplares por semana era considerada boa, levando em consideração fatores como o fato de o veículo não contar com qualquer apoio promocional e ter contra si “toda a má vontade da imprensa local (que sequer noticiou o seu lançamento)”.  A venda de espaço publicitário, “fonte principal de sustentação de todos os jornais e revistas do país”, revelou-se inviável: em vez de um mínimo de duas páginas de anúncios por semana, sua média nunca ultrapassou meia página por edição.

O prejuízo mensal de 550 mil era mesmo insuportável para “uma empresa pequena que só pode contar com seus próprios recursos, por ser uma cooperativa e por pertencer a 300 jornalistas e a nenhum empresário”. A decisão de suspender “por tempo indeterminado” a circulação do semanário se respaldava também na necessidade de “concentrar os nossos esforços em outros dois projetos já melhor encaminhados”: o mensário Coojornal e a revista Ano Econômico, que circularia naquele mesmo mês “e que demonstra, pelo desempenho do seu primeiro número, um potencial excelente”.

A explicação aos leitores se encerrou com uma exaltação aos cinco anos que a  Coojornal tinha então, e ali apresentada como “uma reação ao processo de monopolização da informação através de grandes grupos empresariais (no caso gaúcho, dois grupos praticamente)”. O ideal de editar um semanário de informações continuaria em vigor e o encerramento da nota foi otimista, com a declaração de que O Rio Grande retornaria às bancas futuramente “após o reexame de todos os aspectos do seu projeto e superadas as dificuldades desse primeiro momento”.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

One Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.