Além de estimular a criação de entidades do gênero pelo país, a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre inspirou também outros movimentos coletivos. Um deles, em julho de 1977, visava a criação de uma cooperativa habitacional direcionada a jornalistas e suas famílias. Uma meia dúzia de encontros foram realizados na sede da Coojornal, pelo menos um deles contando com a participação de um técnico do Inocoop, o Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais.
A entidade foi criada para dar suporte operacional e de assessoria às cooperativas habitacionais, mas nesse caso não ajudou nada. Uma série de obstáculos criados tanto pelo Inocoop como pelo BNH (Banco Nacional de Habitação, criado pelo regime militar ainda em 1964 e extinto pelo governo Sarney, 22 anos depois) desestimularam o pessoal. A ideia morreu órfã. Faltou um líder que pegasse o touro à unha e desse seguimento ao sonho.
Já outro movimento coletivo deu certo, muito certo: a Creche Pé de Pilão, criada para abrigar os filhos de jornalistas que tinham dificuldades devido às jornadas de trabalho que avançavam a noite enquanto as maternais tradicionais operavam no burocrático horário comercial.
Rosvita Saueressig foi a mentora e inspiradora do projeto. Ela ainda não tinha filhos (teria dois meninos alguns anos depois disso) nem estava grávida, mas foi sensível para identificar aquela necessidade e provocar a mobilização das jovens mães que circulavam pela Coojornal. A líder impôs apenas uma condição – que a creche funcionasse nos moldes da cooperativa, com direitos iguais a todos e uma diretoria formada exclusivamente por mães e pais.
A inspiração do nome veio de um livro infantil do poeta Mario Quintana. “Foi um sonho realizado”, reconhece Maria Beatriz Lopes da Silva, a Bia Lopes, lembrando que naqueles anos 70 o movimento sindical e o cooperativismo floresciam como resistência ao autoritarismo da ditadura militar. O que não impediu que, inspirados na experiência da Coojornal, pais e mães fundassem a Associação Pé de Pilão com uma missão bem determinada: criar e manter uma creche que atendesse em horários ampliados para contemplar as necessidades específicas das mães jornalistas repórteres, com sua carga horária de trabalho diferenciada.
O apartamento de Rosvita, com a solidariedade compreensiva de seu esposo Nei, abrigou dezenas de encontros para colocar a iniciativa em pé e, vencendo a burocracia, criar um estatuto adequado àquela entidade nada convencional. Bia recorda que o grupo envolvia cerca de 20 jornalistas e simpatizantes na tarefa difícil de debater e definir seu texto. Ao final, concordou-se que a associação, mantenedora da creche, seria criada em regime de cotas a serem adquiridas pelos associados.
Em outubro de 1977 a assembleia de constituição elegeu a primeira diretoria, liderada por Bia, tendo Eliete Cheuiche Vieira da Cunha e Jandira Cunha como vice-presidentes e Julieta Nunes na tesouraria. Para abrigar a creche, uma casa foi alugada na Rua Marcílio Dias, quase esquina com Avenida Érico Veríssimo. O endereço tinha um alvo preciso: o prédio era quase vizinho à redação do diário Zero Hora, local onde trabalhavam muitas das potenciais “clientes”.
A creche já começou muito bem estruturada, com o apoio de pediatra, nutricionista, pedagogo e recreacionista. Em certo momento ampliou o atendimento para contemplar filhos de profissionais de outras categorias. Só não conseguiu oferecer o serviço de hotelaria, ideal que se buscava, como recordou Bia, para acolher as crianças durante a viagem de trabalho das mães repórteres. Mas se fortaleceu a ponto de a associação conseguir adquirir um imóvel próprio, ainda uma casa, na Rua Barão de Guaíba. Cujo destino hoje é ignorado…


One Comment
Grande a Coojornal foi minha casa, muito importante na minha vida.
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