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Coopítulo 114 – Perdão, Leitores

Refletir e noticiar sobre jornalismo era uma temática básica na pauta do Coojornal. O cartão de visitas era dado pela coluna “Perdão, Leitores”, assinada por Luiz Cláudio Cunha, que colocava o dedo na ferida dos jornalões ao dissecar fatos que omitiam ou manipulavam. Analisava e criticava registros da grande imprensa com um texto ao mesmo tempo criativo e ferino na medida certa. Vice-presidente na primeira diretoria da Cooperativa dos Jornalistas, era na época chefe da sucursal da Veja e da Abril no Rio Grande do Sul, o que englobava todas as revistas da editora. Chefiava perto de duas dezenas de jornalistas e colaboradores eventuais de quase 20 revistas semanais ou mensais publicadas pela editora – o que não o impediu de dedicar seu talento para o Coojornal.

O convite para escrever a coluna veio de Elmar, “o editor que achava lícito reclamar de um jornal que sonega notícia importante ou dá notícia distorcida”, lembrou Luiz Cláudio. A crítica ampla, geral e irrestrita da própria imprensa era algo feito com brilho e elegância desde 1975 por Alberto Dines no seu Jornal dos Jornais, a prestigiada coluna dominical que ele criou na Folha de S.Paulo.

Já na estreia, na edição de outubro de 1976, Perdão, Leitores registrava a forma como foi noticiada a inauguração da fábrica da Fiat em Minas Gerais. Embora tenham enviado representantes ao evento, os jornais gaúchos não noticiaram que, uma semana antes, um acidente matara um dos pilotos de prova da fábrica quando dirigia um Fiat 147, o modelo que começava a ser produzido no Brasil. “A Zero Hora gastou boa parte da seção Automóveis para falar bem e fartamente dos modelos 147. Para o acidente, sobrou um mineiro silêncio”, registrava a coluna.

Inspirado em Dines e com a diretriz traçada por Elmar, Luiz Cláudio catava nos bastidores as omissões, distorções e vilanias da imprensa, destacando com cruel ironia o clima servil e as transgressões éticas da mídia tradicional e da submissa elite governante que rastejava diante do regime dos generais.

Era assim Luiz Cláudio, um atento leitor, e implacável em suas reflexões e informações exclusivas, apontando as feridas e contradições da imprensa. E do que a cercava e onerava, a começar pela implacável censura e sua desgastante burocracia, que em dezembro de 1976 passara a exigir uma leitura prévia das reportagens publicadas pela revista Paralelo. Pouco antes, os editores do quinzenário Lampião haviam sido enquadrados na Lei de Segurança Nacional pela publicação do artigo “1964: o sonho acabou”. 

Luiz Cláudio contou: ao longo de 1976, a Censura no Brasil interditou seis filmes, apreendeu outros 98, proibiu 29 peças teatrais, vetou 74 livros (‘Zero’ e ‘Feliz Ano Novo’ entre eles). E arrancou da televisão Maria Alcina, Ibrahim Sued, o Balé Bolshoi e as novelas da Globo ‘Roque Santeiro’ e ‘Despedida de Casado’. A tesoura do regime seguia cruel.

As incongruências de um país devastado pela força e sufocado pela repressão transbordavam a pauta da coluna. Na edição de julho de 1977, com ironia e indignação na medida do possível, Luiz Cláudio registrou que os alunos do quarto ano de jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria iriam se formar com uma boa “experiência prática”: o seu jornal-laboratório Comunicação foi censurado e não circulou. Indignados, os alunos publicaram manifesto cuja leitura nas rádios locais foi proibida pela Censura Federal. Um dos professores responsáveis pela censura era Antônio Abelin, coordenador do curso, jornalista e presidente da Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e TV (Agert). Conclusão do colunista: “Nota zero para o senhor Abelin – como professor, como jornalista e como líder da entidade empresarial”.

Perdão, leitores tinha, e aqui vale o clichê, uma legião de admiradores. Entre eles se alinhava Rosana Ellwanger, que em 2010, quando cursava Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul, produziu um trabalho acadêmico sobre a coluna. O artigo de 15 páginas, intitulado “Perdão, Leitores: a crítica ao regime militar nas páginas do Coojornal”, orientado pela professora Veridiana Pivetta de Mello, venceu outros 18 competidores na categoria Iniciação Científica e conquistou o Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo de 2010, conferido pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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One Comment

Regina Peixoto Vasquez

Parabéns, Vieira, e obrigada por esse resgate da memória de mais um belo serviço do Coojornal e do talento do Luiz Cláudio. E principalmente por lembrar aos desmemoriados e aos que não viveram o período da ditadura militar sobre a censura. Nesta eleição, independentemente de ideologias, o voto vai decidir se o Brasil prioriza ou mão a democracia. É isso que está em jogo.

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