Em 1976 circulavam nada menos do que seis jornais diários em Porto Alegre. Pela ordem alfabética, Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Jornal do Comércio e Zero Hora. Todos davam atenção ao principal evento cultural que acontecia no final de outubro e início de novembro, uma nova edição anual da Feira do Livro, numa época em que a cultura respirava em todos os poros, mesmo que reprimida pelo governo ditatorial.
O Coojornal estava recém em sua segunda edição nas bancas, mas já tinha um prestígio capaz de levá-lo a promover um debate com uma dezena de escritores, feito que nenhum daqueles diários conseguiria. No dia 25 de outubro, o mensário reuniu naquela famosa sede da Comendador Coruja nada menos do que 12 escritores para uma mesa redonda sobre literatura brasileira. Foram quase quatro horas de uma conversa ininterrupta, na qual Clarice Lispector surpreendeu pelo ânimo e entusiasmo, apesar de sua saúde precária.
O grupo que o Coojornal reuniu faria inveja a qualquer jornal: além de Clarice, ali estavam os escritores Bruna Lombardi, Caio Fernando Abreu, Fernando Morais, Heitor Saldanha, João Antônio, José Louzeiro, Léo Gilson Ribeiro, Nélida Piñon, Murilo Rubião, Sérgio Caparelli e Wander Pirolli. Da conversa cheia de ideias e desafios, liderada pelo crítico literário de Veja Jorge Escosteguy, gaúcho que era um dos mais entusiastas divulgadores do trabalho do Coojornal, saiu a decisão de se lutar pela criação de um sindicato dos escritores como melhor caminho para ajudar a estruturar o mercado literário e especialmente a remuneração dos autores.
O posicionamento se concretizou em um documento com os princípios que os signatários consideravam fundamentais para que o autor nacional “consiga atingir um caráter de profissionalização e de defesa da liberdade de criação da categoria”. Além dos que estavam presentes ao histórico encontro na cooperativa, outros 15 assinaram o documento, entre os quais figuravam Mario Quintana, Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca.
Tantas figuras destacadas estavam em Porto Alegre em função da Feira do Livro, que luzia em seus melhores momentos com escritores e leitores circulando com fome e sede de cultura pelos corredores improvisados da Praça da Alfândega. Liderada pelo cartunista Fraga, hoje meu colega colunista aqui no Coletiva.net, a Cooperativa dos Jornalistas também montou sua barraca, direito adquirido como associada à Câmara Riograndense do Livro. Queríamos promover a entidade junto aos leitores e dar visibilidade ao Coojornal. João Antonio, Mario Quintana e Bruna Lombardi eram frequentadores assíduos. Fraga conta inclusive que João, que além de escritor foi jornalista e era reconhecido por criar o conto-reportagem, fez da barraca seu verdadeiro quartel-general. “Ficava tardes inteiras conosco dentro na barraca. Nos acompanhava e também atendia, dava autógrafos, adorava papear com o público e nos divertia com suas histórias deliciosas”, relembra Fraga.
Solidários, muitos associados colaboraram espontaneamente com horas dedicadas a atender os frequentadores que iam especialmente em busca de livros sobre jornalismo e comunicação. Edgar Vasques, Lilian Ben David, Dudu Guimarães, Higino Barros, Elaine Lerner, Carmen Fonseca e Carlos Urbim estavam entre estes fiéis associados-colaboradores. Fraga conta com prazer como era risonho e estimulador aquele ambiente:
– Como era uma inesperada novidade na praça, a barraca virou grande atração pro povaréu, que buscava obras selecionadas, livros de jornalistas e de conteúdo correlato, como reportagens, denúncias e também livros de natureza política, estudos sobre o Brasil, sem faltar livros de poetas e cronistas da área jornalística. Para faturar mais, a gente sempre recheava as prateleiras com aqueles da lista dos mais vendidos, menos os best-sellers comerciais. Outro aspecto positivo e que atraía leitores: livros de autores independentes, jornalistas ou não.
A barraca deu lucro e a experiência se repetiu por mais alguns anos. Junto com Zé do Arquivo, o associado Maneco Canabarro, que depois faria carreira em São Paulo e se tornaria um dos especialistas em marketing eleitoral, tocou a barraca no final dos anos 70. Ambos se dedicavam a fazer um “atendimento pró-ativo”, procurando não deixar ninguém sair sem um livro embaixo do braço. Maneco recorda que certo dia um senhor se aproximou e ficou bons minutos olhando minuciosamente todos os livros, sem escolher nenhum.
– Querendo vender a ele, me aproximei e o abordei: “O sr. está procurando algum livro específico? Tem interesse em que tipo de leitura?”, perguntei. Ele levantou a cabeça dos livros, me olhou nos olhos com cara de irritação, e disparou à queima-roupa: “Por quê? O senhor é da Polícia?”.
Maneco ficou constrangido, pediu desculpas e só então reconheceu o cliente: era o escritor Dyonélio Machado, conhecido por comportamentos como este.
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O registro daquele encontro histórico dos escritores na sede da Coojornal ganhou quatro páginas do tablóide na edição de novembro de 1976. Que traria, como destaque de capa, uma reportagem sobre o Caso Kliemann, um crime ainda hoje não esclarecido. Em junho de 1962, ao chegar em casa, o deputado Euclides Kliemann encontrou sua mulher morta. Tido como o principal suspeito, foi assassinado no ano seguinte, o que deixou o caso inconcluso. Aquela reportagem assinada por André Pereira seria um dos marcos que passaria a caracterizar o Coojornal: produzir reportagens com resgate de fatos históricos regionais e nacionais. Muitas outras grandes revelações se seguiriam.

Recorte da reunião dos escritores: Caparelli, Caio, Morais, Escosteguy, Nélida e Clarice


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