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Coopítulo 17 – Os sonhos inspiram, a realidade ensina

Por José Antonio Vieira da Cunha

Eliete Santana de Quadros era uma jovem que chegou cheia de sonhos e ideias para atuar no Departamento Comercial da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre. Hoje diretora da Marprom, pedi a ela um depoimento sobre um episódio inusitado – para a época… – vivido por ela na tentativa de emplacar um novo projeto jornalístico. Seu relato é claro e significativo: 

“Fazer parte da Coojornal foi meu sonho de consumo no final dos anos 70, quando, ainda recém-formada, atuava no mercado publicitário. Significava, para mim, trabalhar em um ambiente totalmente inovador e inspirador, que contribuiria muito para a minha carreira. 

Foi um orgulho imenso, portanto, quando recebi o convite do querido Ênio Lindenbaum para integrar o time comercial da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre. Trazer anunciantes para um grupo de jornalistas independentes e questionadores era um desafio e tanto em pleno regime militar. Naquela ocasião, enfrentávamos a vida diariamente e eu, sempre otimista e corajosa, sabia que daria certo.

Conhecia bem os principais anunciantes do Estado e tinha um bom trânsito no mercado por já ter atuado em grandes agências, como a MPM Propaganda e a Norton Publicidade. Minha jovialidade e obstinação também contaram muito a meu favor. E lá fui eu, então, desbravar os intelectuais, os disruptivos que estavam criando a primeira startup brasileira, apesar desta palavra ainda não existir nos idos de 1979. 

Além dos objetivos de ampliar a base de clientes e desenvolver outras frentes de negócios, tinha também as minhas próprias metas: buscar novos conhecimentos, ser reconhecida por mentes brilhantes e fazer amigos. Era jovem e curiosa, comportamento que cultivo até hoje. Realizei tudo que me propus a fazer! Algumas amizades, inclusive, seguem comigo. Outras passaram e deixaram saudades.

Comecei os esforços de prospecção e atraí uma grande empresa de telefonia. A companhia enfrentava uma série de dificuldades no relacionamento com o público, uma vez que existia uma demanda enorme por linhas telefônicas, escassez de oferta e quase nenhuma comunicação com os clientes. Era uma oportunidade importante para a Coojornal que, para driblar o receio de perseguição política dos anunciantes, desenvolvia projetos paralelos para gerar receita. Assertiva e perspicaz, a equipe de criação desenhou um grande projeto: uma revista mensal, leve e informativa, que iria estabelecer um canal de comunicação com os clientes, além de criar vínculos emocionais. 

Foram dias e noites de muito trabalho e dedicação. E apesar de participar pouco do processo de construção, já que se tratava prioritariamente de um trabalho de criação, tinha consciência da importância do meu papel. Estava contribuindo para o futuro da cooperativa. Conquistava também um dos meus objetivos pessoais: reconhecimento, projeção! Queria, desde o início, ser percebida pelos disruptivos do mercado e, agora, estávamos prestes a assinar um contrato que, certamente, traria tranquilidade financeira para a Coojornal. 

Com aquele sentimento de triunfo, brilho nos olhos e o ego à beira de explodir, fui para a reunião de apresentação com os papas Polydoro, Vieirinha e o próprio Ênio Lindenbaum. Tudo perfeito! Apresentação maravilhosa, projeto elogiado pela direção. Agora, era só aguardar a aprovação, que deveria ser formalizada em seguida.

Passados alguns dias, recebo uma ligação com um convite para almoçar com um executivo da companhia. Coloquei meus saltos e, emocionada, estava pronta para receber o “ok”. Recebi, na verdade, um soco no estômago. Primeiro vieram os elogios de praxe e, na sequência, o que de fato era o assunto do almoço: o pedido de receber um carro de presente em troca da aprovação do projeto. 

Era sexta-feira e passei o final de semana inteiro sem dormir. Além de muita dor no estômago, estava com medo e preocupada tanto com o futuro daquela ideia como com a continuidade na cooperativa, um lugar no qual eu sentia um orgulho enorme de estar.  

Na segunda-feira, relato ao Ênio tudo que havia acontecido. Ele ouve e sai em silêncio para conversar com o Vieirinha, presidente da Coojornal. Após minutos que pareceram uma eternidade, sou chamada e muito questionada. Percebia que me testavam, que queriam me conhecer mais a fundo, saber se não era um delírio da minha parte. 

Infelizmente não era. O projeto foi cancelado e o sociólogo que, naquele almoço, pediu um Fiat 147 para dar sua aprovação, foi demitido. O carro correspondia a 10% do valor a ser investido…

Foi um grande aprendizado, que honro até os dias de hoje.

Aprendi, neste episódio, que o reconhecimento depende principalmente de atitudes, não apenas do resultado. Aprendi que o Comercial, além de importância estratégica, tem um papel decisivo na integridade de um negócio. Aprendi que precisamos confiar em quem admiramos, do contrário é alguma outra coisa, não admiração.

Aprendi, acima de tudo, que ética, zelo e cuidado devem permanecer sempre intactos, por mais que haja ameaças à sobrevivência financeira de um negócio.

Aprendi, por fim, que o mundo mágico e ingênuo dos sonhos não existe, mas que podemos e devemos fazer a nossa parte para mudar a realidade. São ensinamentos sempre atuais, apesar dos 40 anos que me separam daquele indigesto almoço.”

 
 Eliete: em busca de conhecimentos e reconhecimento
 

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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