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Coopítulo 20 – Uma reflexão cinquentona

Por José Antonio Vieira da Cunha

Lá atrás, nos anos setenta do século passado, o Alberto Dines, um dos mais conscientes jornalistas brasileiros, disse certa vez que a burocracia considera a criatividade um perigo. Referia-se especialmente ao ofício do jornalismo, e lembrou que, infelizmente, o perigo que corria a grande empresa jornalística moderna – atenção, falou sobre isso há 50 anos – não era a ênfase ao jornalismo, mas o contrário, a predominância da tecnocracia e da burocracia. Na sua leitura, seja em nações ou em empresas, o tecnocrata é o fornecedor de dados ou o viabilizador de um processo, mas nunca aquele a quem se pode confiar a decisão política.

A crise atual da imprensa no país e no mundo passa por aí – o burocrata assumiu os destinos das empresas jornalísticas. Enquanto estas se transformavam em fábricas de produzir jornais e revistas, a informação foi relegada a um plano inferior. De quarto poder, respeitado por governantes e governados durante dois séculos, a imprensa soa agora como um item supérfluo, ao esquecer os reais interesses das comunidades a que deveriam servir, como atentos fiscais dos verdadeiros poderes constituídos.

Os noticiários de esporte, de variedades ou de amenidades podem ser importantes, mas nunca essenciais, e no entanto passaram a ocupar generosos espaços na mídia. Ao ir na contramão desta correnteza, o Coojornal foi saudado como a grande inovação surgida na imprensa brasileira naqueles anos. Começa que sua gestora, a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, procurou desenvolver-se como um organismo a valorizar o profissional e sua atividade. Buscava-se exercer o jornal dos jornalistas em sua essência, no qual a qualidade, o talento, a isenção e o respeito para com o leitor despontavam como fatores preponderantes.

Estávamos convictos de que a credibilidade é fundamental. Nenhum jornal, por mais exemplares que venda, nenhum anúncio, por mais impactante que pretenda ser, terá poder suficiente para influir e ajudar a vender a mensagem que veicula se não for respeitado por quem o lê ou recebe.

A crise que se vive hoje passa por aí. Quando veículos de comunicação remam contra a maré, não há espaço para respeito. E é a crise – permanente? – vivida pelos meios gerados no ventre da internet. Blogs, sites, plataformas com versões escoradas nas mentiras colocam sob suspeita o jornalismo informativo. O consumidor de informação ainda tende a buscá-la em jornais, revistas, rádio e televisão com os quais tenha algum tipo de afinidade. Mas há uma guerra de informações em nosso meio, com o governo Bolsonaro se caracterizando por distribuir meias verdades ou mesmo falsas notícias para, com a repetição delas, fazer com que assumam ares de “verdadeiras” para a percepção do cidadão médio. O resultado é que aquela confiança no noticiário torna-se frágil ou inexistente.

O publicitário Mauro Salles, que também passou pela mídia impressa e pelo poder executivo, disse certa vez que a indústria da comunicação coletiva tem uma grande responsabilidade, a de trazer a opinião pública para dentro dos problemas, dos dramas, das decisões. Os profissionais da comunicação e suas empresas, o rádio, o jornal, a televisão, a mídia eletrônica, mesmo a publicidade, não podem se esconder das crises ou esconder as crises. Não podem ficar de costas para as dificuldades, mostrando apenas uma face rosa no espelho. O que devem é criar o debate que traga das crises o fermento, o desafio para o crescimento, a motivação para os esforços criativos.

Este espaço, penso, está em aberto na medida em que profissionais e empresas toleram a disseminação das notícias falsas e dos ataques à imprensa enquanto instituição capaz de zelar pelos princípios democráticos da nação. Só lutando contra isso teremos veículos eficientes, dos quais a própria mensagem publicitária necessita para cumprir a sua finalidade.

A questão é que a informação é uma necessidade vital para o equilíbrio da vida social. Em vez do silêncio, da omissão, o jornalismo é indignação, é inconformismo, é ousadia, é determinação de resistir, é coragem de protestar. E é, acima de tudo, honestidade de informar. Foi seguindo princípios como estes que o Coojornal solidificou sua imagem. Não é fácil, mas bastante possível.

Coojornal: jornalismo com respeito, indignação e inconformismo

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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