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Coopítulo 21 – De censuras e comportamentos

Por José Antonio Vieira da Cunha

Cada nova edição era mais uma etapa no amadurecimento do Coojornal. Em fevereiro de 77, ao chegar a sua quarta edição em banca, o reconhecimento de leitores aumentara a ponto de levar a Cooperativa dos Jornalistas a criar um departamento de assinaturas. Era bem-vinda a demanda de leitores por fortalecer este vínculo com o jornal – assinante é o mais fiel leitor, como sabemos.

Era apenas o início, mas o jornal já comparecia em 140 bancas de Porto Alegre e em 30 cidades do interior gaúcho. Carlos Alberto Wagner foi escalado para coordenar este departamento. Como já contado aqui, este depois multipremiado repórter começara como um datilógrafo e se aquerenciara naquele ambiente formado quase exclusivamente por jovens, também eles apaixonados por jornalismo. A busca por assinantes mobilizou colegas em todo o país, que recebiam carnês de assinaturas e se encarregavam de espontaneamente cuidar da disseminação daquela ideia.

Elis Regina, quando esteve em Porto Alegre apresentando seu Transversal do Tempo, recebeu um pequeno grupo nosso em uma manhã de sábado no então moderno hotel Plazinha. Além da entrevista, brindou-nos com uma simpatia e espontaneidade invulgares, se encantou com a ideia de criação de uma cooperativa de profissionais jornalistas, elogiou o Coojornal – porque já conhecia – e fez questão de ficar com um daqueles carnês. Acho que nenhum de nós levou fé naquele gesto gentil, e para nossa surpresa menos de um mês depois o carnê retornaria com todas as 50 assinaturas vendidas. Uma linda e reconfortante surpresa!

Nesta fase, no início de 77, o Coojornal começava gradualmente a reduzir a ênfase quase exclusiva nos assuntos de imprensa para ampliar seus horizontes, dando espaço a reportagens sobre comportamento e temas históricos, entre outros. Um trabalho sobre o que o jornal identificou como “O louco verão de Tramandaí” mobilizou quatro repórteres – André Pereira, Lenora Vargas, Marina Wodke e Marco Antônio Schuster, mais a fotógrafa Eneida Serrano. Em uma matéria excepcional mostraram como uma pequena cidade de 12 mil habitantes se transformava ao receber 400 mil veranistas durante dois meses. Com oportunismo, os veículos de Porto Alegre instalavam equipes em hotel para acompanhar aquele frenesi.

E registrava a reportagem: “Na Avenida Emancipação, um dos ‘cartões de visita da cidade’, e na beira da praia, desfila uma fauna riquíssima de tipos representando praticamente todas as classes sociais, faixas etárias e ambições pessoais. Moradores tradicionais fecham-se em suas casas aos fins de semana, queixando-se que a pacata cidade, de 12 mil habitantes no inverno, foi tomada pela loucura”.

“O que é a Avenida Empancipação?”, perguntava uma entrevistada, referindo-se ao principal ponto de encontro da praia e dando logo a resposta: “De repente, fecha o pau ali e ninguém sabe explicar por quê. A bebida é fácil, o tóxico também. Todo o contexto conduz à liberação. E essas pessoas desrecalcam da pressão da vida urbana a que estão submetidas o ano todo”.

Na coluna Perdão, leitores, Luiz Cláudio Cunha seguia trazendo reflexões e informações exclusivas sobre o comportamento da imprensa naqueles tempos. E do que a cercava e onerava, a começar pela implacável censura e sua desgastante burocracia, que em dezembro de 1976 passara a exigir uma leitura prévia das reportagens publicadas pela revista Paralelo. Pouco antes, os editores do quinzenário Lampião haviam sido enquadrados na Lei de Segurança Nacional pela publicação do artigo “1964: o sonho acabou”. 

Luiz Cláudio contou: ao longo de 1976, a Censura no Brasil interditou seis filmes, apreendeu outros 98, proibiu 29 peças teatrais, vetou 74 livros (‘Zero’ e ‘Feliz Ano Novo’ entre eles) e tirou da televisão Maria Alcina, Ibrahim Sued, o Balé Bolshoi e as novelas da Globo ‘Roque Santeiro’ e ‘Despedida de Casado’.

No comportamento e na política, era assim que andava o país nos anos 70.

Tramandaí: uma amostra do verão nos anos 70

 

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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