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Coopítulo 22 – O turco no jornal

Por José Antonio Vieira da Cunha

Não faltam ambientes conservadores no Rio Grande do Sul, e se houvesse um ranking deles, o do cooperativismo gaúcho ocuparia uma das primeiras posições. Dada a natureza de sua atividade primária e o consequente sentimento atávico que está inerente a quem lida com a terra, este setor da economia gaúcha, pujante desde meados do século 20, é povoado por produtores rurais ciosos de suas coisas e tradições.

Formada por jornalistas que em geral não cabiam neste rótulo de tradições arraigadas, a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre enfrentou muitas dificuldades para se inserir no ambiente cooperativo e ser respeitada pelo que fazia. E pelas reportagens que trazia e o perfil que o destacava, o Coojornal só tendia a agravar esta dificuldade. 

Desde o início entendíamos que participar do movimento cooperativista era indispensável para nós, que optamos por este sistema exatamente pelo que identificamos como qualidades. Entre elas, a questão da igualdade era um imperativo, ao definir que cada sócio tem direito a um único voto, e que o lucro não era a razão primeira da organização e sim o crescimento de seus integrantes.

Então, participar de eventos e da vida cooperativa era também um imperativo. E não se tratava de um discurso, mas de uma prática – uma delas foi criar os Cadernos de Cooperativismo, idealizados como uma relevante contribuição à bibliografia sobre cooperativismo ao trazer um raio xis do setor. Para colher elementos para a segunda edição dos Cadernos, nos mobilizamos para participar do IV Seminário Gaúcho de Cooperativismo, que se realizou em março de 1977 em Gramado. Era um grande evento, atraindo centenas de lideranças que se reuniam no amplo auditório do Hotel Serra Azul, o mais imponente da serra gaúcha naqueles tempos.

Não foi fácil a abordagem, e foram muitos os olhares de desconfiança lançados para a edição do Coojornal que fizemos circular por aqueles salões. Mais da metade da capa era ocupada por um recurso gráfico com uma grande foto do deputado Pedro Simon e a manchete: “O MDB vai resistir?”.

Faltava um ano para as eleições ao governo do Estado, e o cenário político nacional alimentava uma dúvida crucial: haverá eleição direta em 78? Pela lei vigente, sim, e um dos cenários que incomodavam o governo federal levava a certeza de que o Rio Grande do Sul elegeria governador o maior líder da oposição – ele, Pedro Simon. O MDB gaúcho era respeitado nacionalmente como o mais organizado e forte, a ponto de ser considerado o único partido político existente no país. A entrevista foi muito pontuada pela dúvida levantada na manchete e que, menos de um ano depois, teria o pior final. As eleições foram indiretas, e “aquele turco” que tanto incomodava o ditador Ernesto Geisel teve de adiar o projeto de a oposição assumir o governo.

Andar pelos ambientes do Serra Azul apresentando o Coojornal e trabalhando por sua divulgação – o jornal estava recém iniciando sua trajetória em bancas – exigia coragem, pois significava também enfrentar as barreiras ideológicas e morais levantadas pela ditadura de plantão. Assim, não por acaso, alguns circunstantes ficavam visivelmente constrangidos ao serem apresentados àquela publicação que fugia do convencional.

 O presidente da Ocergs (Organização das Cooperativas do Rio Grande do Sul) foi o olhar mais constrangido entre tantos que identifiquei. Não sussurrou nenhuma palavra que levantasse a mínima ideia de censura, mas era evidente que não se sentia à vontade com aquela capa que lhes soava provocadora. Em pouco tempo, no entanto, as restrições se reduziram, e a Cooperativa dos Jornalistas e seu Coojornal passaram a ocupar um espaço importante no esforço de comunicação cooperativista. Tanto que inspiraram também a criação de uma associação de jornais cooperativistas, a AJOCOOP. Mas, bem, esta é outra história.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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