Coopítulo 78 - Elmar 80 anos

Por José Antonio Vieira da Cunha

05/02/2024 17:32
Coopítulo 78 - Elmar 80 anos

Quando se preparava para escrever um perfil de Elmar Bones da Costa, o jornalista Márcio Pinheiro pediu minha opinião sobre o amigo que estava completando 80 anos agora no final de janeiro. Márcio queria saber como foi a atuação do Bicudo, como todos nós o conhecemos, na Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre e em especial no Coojornal, do qual foi o editor durante a fase áurea do mensário. Com o maior prazer, registrei: Elmar esteve atuante desde o primeiro momento da Coojornal e é diretamente responsável pelos melhores momentos do Coojornal e pelo equilíbrio e sensatez nos debates e análises sobre o papel e a importância da cooperativa no cenário conturbado da segunda metade dos anos 70.

Na história da Coojornal, Bicudo tem um papel de grande destaque desde a gênese, como integrante do grupo que começou a levantar a ideia de criação de uma cooperativa de jornalistas. Estava na mesa dos trabalhos da assembleia de fundação. Junto com Jorge Polydoro era sócio de uma empresa, a Verbo, editora que foi incorporada pela cooperativa seis meses após sua fundação. Esta ação foi o marco do início concreto de trabalhos na Coojornal, pois editava algumas publicações especializadas, entre as quais despontava o Jornal do Inter.

Elmar foi um dos profissionais essenciais para o estágio de excelência alcançado pelo Coojornal. Então com 30 anos, já trazia uma extensa carreira em veículos como a Veja, onde foi um dos integrantes de sua primeira redação, no final dos anos 60, e como a Gazeta Mercantil, da qual era seu diretor regional. Sua gama de relacionamentos com colegas de todo o país foi essencial para trazer para as páginas do Coojornal inclusive reportagens que grandes veículos temiam publicar.

Equilibrado e cauteloso como aqueles anos difíceis exigiam, estava sempre atento para não dar margem a qualquer tentativa de se impor censura prévia no Coojornal, defendendo que a autocensura sempre seria uma causa mais coerente do que entregar o material para alguém censurar. Lembro que no caso dos relatórios do Exército sobre a guerrilha, que o jornal revelou com coragem e exclusividade, foi ele quem defendeu com mais ênfase sua publicação com o ponto de vista de que seria importante provocar uma discussão em torno do assunto e divulgar documentos que a opinião pública tinha direito de saber.

A divulgação desta mancha na imagem militar envergonhou a caserna, mas nem o fato de o país estar iniciando a caminhada para a abertura democrática impediu o sistema de partir para a retaliação. Um inquérito foi aberto com epílogo em julho de 1981, com a condenação a cinco meses de prisão dos quatro jornalistas que assinaram a reportagem. Além de Elmar, Rosvita Saueressig, Osmar Trindade e Rafael Guimaraens.

Elmar era assim, liderava o processo no limite da censura, sabendo recuar com lucidez nos momentos delicados. Como era praticamente impossível identificar o que seria este limite, foi ele quem decidiu apostar em temas pesados através da história abordando com exaustão pautas como o getulismo e o castilhismo, para ficar em apenas dois exemplos. Mas não nos enganemos, sua ousadia esteve sempre acompanhada de uma postura ponderada, inteligente e equilibrada. Era como se manifestava nas longas reuniões que o Conselho de Editores da Cooperativa dos Jornalistas realizava praticamente todas as segundas-feiras. Tinha pouco mais de 30 anos, mas era o mais antigo entre aqueles jovens que alimentavam o sonho de participar da criação de um verdadeiro jornal de jornalistas.

Comentei com o Márcio, e esta observação está presente no trabalho que o Jornal do Comércio publicou: uma das características do Elmar é saber identificar talentos e apostar neles. Tem muito bom jornalista por este Brasil afora que bebeu de sua sabedoria no início de carreira.