Corações alegres e precipitados

“Nem sempre nos damos conta quecaminhamos sobre pedaços de nossa história.”(Eloy Terra, “As Ruas de Porto Alegre”) *** A “Muy Leal e Valerosa” tem …

"Nem sempre nos damos conta que
caminhamos sobre pedaços de nossa história."
(Eloy Terra, "As Ruas de Porto Alegre")

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A "Muy Leal e Valerosa" tem estórias capazes de humilhar roteirista de cinema. Não é difícil ouvi-las, basta flanar pelas ruas e conhecer o  que elas têm a dizer. Algumas lembram vetustas matriarcas, outras, poderosas donas de terras: Dona Laura, Dona Veva, Dona Leopoldina. Algumas mantêm nomes indecifráveis, como a rua do Orfanotrófio, ou amaldiçoados, como a rua Cabo Rocha, que, até a década de 50, era um antro de malandros e prostitutas. Ou, como se dizia naqueles tempos, "um covil de velhacoutos". Em Porto Alegre existem ruas que contam histórias tragicômicas, pitorescas, até inacreditáveis.

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As gerações mais antigas gostam de lembrar a Travessa Mário Cinco Paus e os episódios rocambolescos que ali tiveram lugar. É uma rua com menos de 200 metros, ligando a Rua Uruguai com a movimentada Avenida Borges de Medeiros. No início do século XX, Porto Alegre era uma cidade tranquila, onde as pessoas andavam sem pressa pelas ruas. Um tempo sem sobressaltos. Nem assaltos. Mas a calma da cidade foi quebrada nos primeiros dias de 1911, quando alguns bandidos russos invadiram a Casa de Câmbio, em plena Rua da Praia. Eles mataram o gerente, roubaram jóias e dinheiro e fugiram pelas ruas centrais, como em um folhetim de aventuras. O episódio ficou marcado na crônica da cidade e lembrado por gerações.

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Mais de 30 anos depois, o jornalista José Amádio publica na 'Revista do Globo' uma entrevista com um renomado advogado, o Doutor Mário Cinco Paus, que, na época, era um jovem e impetuoso repórter, que estava na Rua da Praia na hora do assalto. Sem esperar pela chegada da polícia, ele saiu em perseguição aos bandidos russos. A 'Revista do Globo' assim relatou o caso:
"Na Rua do Commercio  - atual Rua Uruguai - os arrojados assaltantes pularam numa Vitória (carruagem aberta) e sairam em desabalada carreira rumo à Praça Parobé. Mas um dos cavalos resvalou nos paralelepípedos e a carruagem virou no meio do caminho. Os russos tomaram de assalto um bonde Navegantes, forçando o motorneiro a acelerar o carro, até o fim dos trilhos, sem fazer nenhuma parada no caminho. Foi um deus nos acuda. Senhoras desmaiaram, senhoritas tiveram chiliques? o jornalista Cinco Paus continuou em perseguição aos criminosos e no fim da linha do Navegantes encontrou um carroceiro, que transportara os russos sob ameaça de facas e revólveres? Interrogado, o pobre homem estendeu o trêmulo lábio inferior na direção do mato. Então, o destemido repórter, de revólver engatilhado, embrenhou-se no matagal. Com que intenção ninguém sabe. Nem ele mesmo sabia. Enfrentar quatro homens bem armados e dispostos a tudo era loucura registrada em cartório. Mas, certamente, Cinco Paus estava cego ao perigo: só via uma manchete sensacional no jornal do dia seguinte.
"- E os bandidos?", perguntou-lhe o repórter.
"Cinco Paus relembra: 'os homens ganharam a Várzea do Gravataí, pretendendo alcançar a outra margem do rio e a salvação. Mas não contavam com o Destino, pois a cheia os impediu de cruzar o rio. O cerco durou quase uma semana enquanto eu, com água pelo peito, fazia anotações para o jornal. Numa manhã de cerração, o corneteiro da Brigada tocou 'atacar e fogo', antes de ser alvejado pelos russos, encurralados, que logo foram varados de balas". 'Quando me aproximei - conta Cinco Paus - um deles ainda sacudia a mão com o .38 sem balas, enquanto o corpo mergulhava na água barrenta do rio Gravataí.' "
E lembra:
"Naquela época, tínhamos os corações alegres e precipitados".
O caso empolgou Porto Alegre e, com o sensacionalismo, o povo os transformou de bandidos a heróis e até mártires. Foram sepultados no Campo Santo da Azenha, onde os túmulos apareciam cobertos de flores, todas as manhãs. Era um mistério - seria uma homenagem dos cúmplices? Mais um desafio para o repórter Cinco Paus, que resolveu dormir no cemitério para desvendar o enigma que intrigava a cidade. Ele mesmo conta:
"- Não foi fácil, pois por mais materialistas que sejamos, sempre nos sobra um vago receio do sobrenatural. Na primeira noite, nada. Na segunda vigília, porém, quando a noite tornou-se mais negra, ouvi  'um tinir de pulseiras e um chiar de passos leves'. Um vulto se aproximou lentamente, envolto por um xale escuro. Em vez de fantasma, era uma frágil mulher, uma rameira humilde da 'Rua da Cadeia', que vinha depositar as flores. Contou que fazia assim porque uma cartomante lhe disse que os russos 'tinham ido para o céu, e protegeriam os que cultivassem sua memória' ".
E conclui a 'Revista do Globo': "Foram sentimentos assim que o jornalista Mário Cinco Paus dedicava aos seus leitores e, depois, aos seus clientes. Gente anônima e, muitas vezes, pobre e excluída. Foi um homem tão ligado às ruas que seu nome acabou tornando-se uma delas".
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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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