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Corações Aquecidos

Neste início de inverno, faz um frio de renguear cusco aqui no Estado. E traduzindo a expressão típica gaúcha, tomara que este frio intenso …

Neste início de inverno, faz um frio de renguear cusco aqui no Estado. E traduzindo a expressão típica gaúcha, tomara que este frio intenso não deixe manco um dos meus cachorros, Dalai, Gandhi e Ravi, novo integrante do canil caseiro e que é um legítimo representante da raça street-dogs. Não é só o frio que enfeita os cenários gelados de Porto Alegre. A época é também de gurias vestidas de prenda para as festas juninas das escolas, casamento na roça, de cumprimento de tarefas de gincanas, de pinhão espalhado nas bancas dos armazéns, de sons estridentes comemorando os jogos da Copa do Mundo e de férias escolares.

O frio, aliado aos sentimentos de coletividade das festas populares de junho e julho, congela também os nossos corações. Vivemos um período cruel de renascimento do nosso egoísmo. Quando a previsão da meteorologia acena com os primeiros dias e noites geladas, corremos para o conforto e o aquecimento das nossas casas. Vasculhamos os armários em busca de moletons, blusões e casacos de lã. Forramos as camas de cobertores grossos. Abastecemos o balcão da cozinha com suprimentos calóricos e que apetecem com o frio. Marcamos programas caseiros. Mas o coração continua gelado. Irremediavelmente.

Por que não existe uma lei obrigando que se submeta, no inverno, o coração a um aquecimento diário, em doses pequenas? Por que esta lei não pode determinar a doação espontânea de agasalhos que não usamos mais e apenas entopem os roupeiros? Por que não se obriga a solidariedade por decreto? Por que continuamos sempre egoístas, solitários, fechados no nosso próprio e, às vezes, insensível mundo? Por que existe uma ação estadual de arrecadação de roupas só no inverno? Sei lá. Indagações que me assaltam. Inverno após inverno. E seguem sem respostas. Como a vida, que continua, ao seu bel prazer.

Os corações deveriam se aquecer, independente do nosso comando. Num ato involuntário. Toda vez que uma criança pede na saída de um restaurante um trocado para comer. Toda vez que nosso scarpin quase tropeça no resto de comida do mendigo que se arrasta na rua. Sempre que precisamos desviar porque um sem teto dorme jogado na calçada. Não deveríamos nos acostumar com a falta de educação, moradia, saúde, alimentação, abrigo, abraço. Não deveríamos achar normal esta sobrevivência. Precisamos cultuar a vida.

Não se trata de um texto de autoajuda. Nem de escrever para diminuir a minha culpa. Não tem um objetivo declarado. É apenas um desabafo. Antes que este frio de empedrar água do poço congele de vez a minha solidariedade.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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