Colunas

Cousas de arrepiar

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“- Ouvi certas cousas capazes

                                                              de arrepiar o cabelo da nuca…”

Simões Lopes Neto, “Contos Gauchescos”.

Eram homens simples e rústicos, mas sem desmerecer nenhum deles, possuiam a alma doce e o coração suave. As estórias que Fermino das Dores fantasiava soavam para eles como sonhos de coragem e senhoria. Cansados das duras lides no campo, ouviam hipnotizados lendas e casos de entreveros e cargas de cavalaria. E, nas noites de inverno, quando o vento assoviava nas frestas do galpão e o frio enregelava os ossos, Fermino contava um caso dos brabos para fechar a noite. Conforme dava na telha, lhes contava de Blau Nunes, do João-Sem-Roupa ou até mesmo do foragido-da-lei conhecido como Juan Moreira.

***

O que eles nem imaginavam é que aquele velho peão, que contava estórias como poucos, escondia um passado capaz de assustar gente grande. Não se conhecia testemunhas, todos seus antigos companheiros descansavam debaixo das cruzes brancas do cemitério do Taquaral. A única pessoa que conhecia as coisas daqueles tempos era meu avô Patrício. Mas ele não era muito de conversar. Quando alguém queria saber de Fermino, desconversava:

“Quem se vai, quando volta

Não é o mesmo que se foi.”

***

Na faina do dia a dia da fazenda, Fermino era conhecido por suas muitas habilidades com animais. Conhecia o pio dos pássaros e o nome de cada cobra. Era capaz de identificar de longe ervas curativas e árvores nativas. Por essas e outras, o pároco da Capela das Almas brincava que ele era São Francisco. Os mais curiosos se perguntavam como o homem havia adquirido aquelas habilidades: 

“Como se pode afiar uma faca cega e sem fio 

fazendo dela uma navalha que corta um fio de cabelo no ar?”

Um viajante de passagem pela fazenda jurava ter visto Fermino acalmar um garanhão chucro apenas alisando as crinas e sussurrando em suas orelhas: 

“- Vi o bicho relinchar, arregalar os olhos e corcovear. 

Então, em minutos, estava dócil como cavalo de tropa.”

***

Nas cocheiras, comentava-se que o olhar triste e o jeito caladão do velho peão eram herança dos tempos em que era preciso andar com a garrucha engatilhada e a adaga afiada à mão. Ficavam até aliviados quando o viam alegre como em dia de carreiras, cortando madeira ou lidando com os cavalos. Mas em noites de inverno, quando sopravam ventos gelados do sul, Fermino das Dores parecia outra pessoa. Então chegava a hora de cousas de arrepiar o cabelo da nuca.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.