
“- Ouvi certas cousas capazes
de arrepiar o cabelo da nuca…”
Simões Lopes Neto, “Contos Gauchescos”.
Eram homens simples e rústicos, mas sem desmerecer nenhum deles, possuiam a alma doce e o coração suave. As estórias que Fermino das Dores fantasiava soavam para eles como sonhos de coragem e senhoria. Cansados das duras lides no campo, ouviam hipnotizados lendas e casos de entreveros e cargas de cavalaria. E, nas noites de inverno, quando o vento assoviava nas frestas do galpão e o frio enregelava os ossos, Fermino contava um caso dos brabos para fechar a noite. Conforme dava na telha, lhes contava de Blau Nunes, do João-Sem-Roupa ou até mesmo do foragido-da-lei conhecido como Juan Moreira.
***
O que eles nem imaginavam é que aquele velho peão, que contava estórias como poucos, escondia um passado capaz de assustar gente grande. Não se conhecia testemunhas, todos seus antigos companheiros descansavam debaixo das cruzes brancas do cemitério do Taquaral. A única pessoa que conhecia as coisas daqueles tempos era meu avô Patrício. Mas ele não era muito de conversar. Quando alguém queria saber de Fermino, desconversava:
“Quem se vai, quando volta
Não é o mesmo que se foi.”
***
Na faina do dia a dia da fazenda, Fermino era conhecido por suas muitas habilidades com animais. Conhecia o pio dos pássaros e o nome de cada cobra. Era capaz de identificar de longe ervas curativas e árvores nativas. Por essas e outras, o pároco da Capela das Almas brincava que ele era São Francisco. Os mais curiosos se perguntavam como o homem havia adquirido aquelas habilidades:
“Como se pode afiar uma faca cega e sem fio
fazendo dela uma navalha que corta um fio de cabelo no ar?”
Um viajante de passagem pela fazenda jurava ter visto Fermino acalmar um garanhão chucro apenas alisando as crinas e sussurrando em suas orelhas:
“- Vi o bicho relinchar, arregalar os olhos e corcovear.
Então, em minutos, estava dócil como cavalo de tropa.”
***
Nas cocheiras, comentava-se que o olhar triste e o jeito caladão do velho peão eram herança dos tempos em que era preciso andar com a garrucha engatilhada e a adaga afiada à mão. Ficavam até aliviados quando o viam alegre como em dia de carreiras, cortando madeira ou lidando com os cavalos. Mas em noites de inverno, quando sopravam ventos gelados do sul, Fermino das Dores parecia outra pessoa. Então chegava a hora de cousas de arrepiar o cabelo da nuca.
***

