Do violino da jovem de 23 anos, com síndrome de Down, e que encantou os pacientes do Hospital da Criança Santo Antônio, na abertura do Mês da Criança, no sábado pela manhã, não ouvi apenas canções conhecidas da Música Popular Brasileira. Da palestra do Sinpro/RS, sobre a importância da creche adequada para a formação futura da criança, não colhi apenas subsídios para a matéria que redigi ao chegar na redação. Das duas pautas do meu plantão matinal, compreendi como fui feliz nas minhas escolhas e, principalmente, como é importante fazer crianças alegres, faceiras, brincalhonas.
Protegidos por máscaras para não correr o risco de pegar infecções, veias pequenas perfuradas por agulhas para passar as medicações mais rapidamente e, alguns impossibilitados de se locomover, os internos do Hospital Santo Antônio ganharam, antecipados, horas de diversão e brincadeiras. Coisas que deveriam fazer parte da rotina de todas as crianças. Emocionada, a violinista colecionou afetos. Com sua estatura reduzida, transitava naturalmente entre os pequenos, e posava sem impaciência para fotos. Depois, ela iria peregrinar sem pressa pelos demais andares do Santo Antônio.
Sem diferenças. Sem marcas. Sem rótulos. Sem restrições. Sem o olhar cruel que discrimina. Sem o vil metal que paga as oportunidades. E por falar em diferenças e discriminação, agradeci ao Santo Iluminador das Mães Despreparadas que me indicou uma creche com uma linha pedagógica preocupada em oferecer caminhos para formar um cidadão consciente. Gabriela Martins Trezzi, minha filha criança que está deixando de ser sapeca, freqüentou por sete anos a creche indicada e saiu de lá esboçando suas primeiras indagações sobre justiça, dignidade, inclusão social e oportunidades iguais para todos.
Gabriela sabe que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã e está sempre tentando explicar a grande fúria do mundo. Compreende as diferenças, convive com elas sem nenhum tipo de discriminação, mas demonstra uma certa revolta pelas injustiças. “Se mais tarde eu quiser ser presidente da República, e mudar isso aí, teu voto é meu”, perguntou a pequena revolucionária, testando a fidelidade da sua mãe em uma recente atividade de militância. Quando vejo a minha Gabriela ensaiando passos de justiceira, tenho certeza de que fiz as escolhas apropriadas.
Mas ainda tenho etapas a percorrer. Não me sinto contemplada. Os pacientes do Hospital Santo Antônio, alguns de famílias pobres, têm todo o direito de aprender a fazer escolhas. Exercer a cidadania. Às vezes, a fome interrompe esse trajeto. A jovem violinista merece ser recebida e acolhida sem piedade. Só que a consciência nem sempre está inserida no dia-a-dia de todos. E as crianças, de todos os lugares, deveriam ter opções de creches com preocupação pedagógica e não um simples depósito de meninos e meninas. Porque, como aprendi na creche da Gabriela: educar é um ato fecundo de amor.
Para não dizer que não falei de flores, iria escrever sobre minhas aventuras e planos para divertir a minha filha no Dia da Criança. Os teclados foram me conduzindo para situações envolvendo crianças que deveriam ser felizes como ela. Crianças que só recebem um carinho miserável no 12 de outubro. Crianças que comem feijão amassado com farinha e não sabem o que é carne há muito tempo. Crianças sem teto. Crianças sem pais. E, apesar de tudo, distribuem doses generosas de esperança. São crianças como você.

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