Nelson Rodrigues, o pernambucano que veio criança para o Rio, cidade cenário de sua obra, para mim era “o triste”. Acontece que em 1955, eu havia vindo de São Paulo e, na terceira montagem da sua peça histórica, O Vestido de Noiva, eu era o assistente de direção e ator em pequenas pontas. Todas as noites de espetáculo, durante meses, Nelson baixava no meu camarim e exclamava: ‘Sou um triste, Mario, sou um triste”.
Só muitos anos depois descobri o motivo da sempre presença noturna do triste nas sessões do Vestido: ele era amante de Leonor Bruno, uma das atrizes do espetáculo. Quase 20 anos depois, Nelson não estava em situação financeira muito boa e a direção da Globo resolveu inventar uma “doação elegante” a ele e eu, que ainda não era da casa, fui solicitado para fazer um levantamento econômico-financeiro da montagem do Vestido para a inauguração do teatro do BNH – Banco Nacional da Habitação, no centro do Rio. Com a mesma direção e cenografia da montagem histórica de 1943 – Ziembinski e Santa Rosa – com Maria Cláudia e Norma Bengel encabeçando um grande elenco, em janeiro de 1976 foi inaugurado o Teatro do BNH. 0s tradicionais 10% de direito autoral alegraram as finanças do “triste”, cuja última vez que o vi foi num voo Brasília-Rio quando o adverti que sua braguilha estava aberta. Nesse mesmo voo ganhei da “divina” Elizeth Cardoso um beijo na bochecha. Assim como Nelson, outros brasileiros ilustres nasceram em 1912 e são aqui lembrados.
Domingos da Guia, o grande zagueiro que brilhou no Rio e em São Paulo foi da seleção brasileira de 1950.
O jurista Evandro Lins e Silva que inventou a “legítima defesa da honra” no julgamento de Doca Street pelo homicídio de sua mulher.
O cantor e compositor Herivelto Martins, autor com David Nasser de Ave-Maria do Morro, de cujo casamento com Dalva de Oliveira nasceu o filho, também cantor, Pery Ribeiro.
O escritor Jorge Amado, o mais traduzido dos autores brasileiros nos mais diversos idiomas e deputado federal cassado em 1945 por ser comunista.
O Lua, Luiz Gonzaga, pernambucano de Exu, exportou para o resto do país ritmos nordestinos como o baião, do qual seria “o rei”, o xote e o xaxado. Entre suas mais de 90 composições estão belezas como Asa-branca e Assum-preto, ambas com Humberto Teixeira e gravou mais de 40 discos. Foi velado no Recife e em Juazeiro do Norte, sendo enterrado no berço natal, Exu.
Amácio Mazzaropi, paulistano, celebrizou-se no cinema vivendo o caipira brasileiro, memória de sua infância em Taubaté, para onde se mudara aos dois anos. Prolífero e sucesso de bilheteria, produziu e protagonizou 32 filmes.
Houve um João do interior paulista, com certidão de nascimento de 1910, da cidade do figo roxo, Valinhos, então distrito de Campinas. Sua família foi se aproximando da capital paulista por escalas, residindo em Jundiaí, Santo André e, afinal, São Paulo. Esse João Rubinato, filho de imigrantes italianos, queria ser ator e acabou radialista onde, fazendo muitos personagens, assumiu um deles, Adoniran Barbosa, como seu nome artístico, consagrando-se como o “pai do samba paulista”, usando um linguajar inspirado na fala errada das camadas mais populares de São Paulo. Deixou uma obra onde se destacam composições hoje “clássicas” da música popular brasileira, como Saudosa Maloca, o Samba do Arnesto e o Trem das Onze. Na infância, aos 10 anos de idade, precisou trabalhar para ajudar a família, o que só era permitido a partir dos 12 anos de idade. Então, para ser entregador de marmitas “legalizou” a situação com uma certidão de nascimento falsificada onde ganhou mais dois anos de idade. Por isso, na maioria de suas biografias, Adoniran consta como nascido em 1910.
Quem nasceu em 1912 chegou a um país com 24 milhões de habitantes, ou seja, com cerca de apenas 12% da população atual, com a cidade do Rio de Janeiro como Distrito Federal e com as 21 estrelas originais em sua bandeira nacional. O presidente republicano era Hermes da Fonseca e na Bahia, num intricado problema político, o exército, em confronto com forças estaduais, bombardeou Salvador e, entre outras perdas humanas e materiais, destruiu o Palácio do Governo, um patrimônio histórico com mais de 300 anos.
Na Zona Oeste de Santa Catarina, na divisa com Paraná, entre 1912 e 1916, aconteceu a Guerra do Contestado, num confronto entre forças de ambos os estados. O jornalista, escritor e meu amigo Paulo Ramos Derengoski, catarinense de Lages, no seu livro A Guerra do Contestado praticamente esgota o assunto.
Ano da maior importância para a história esportiva carioca, brasileira e internacional, 1912 registra a primeira partida de futebol do Clube de Regatas do Flamengo acontecida no dia 3 de maio, no campo de América: Flamengo 16, Mangueira 2. Quem foi torcedor do Flamengo, em qualquer época, foi Flamengo até morrer.
Inté.
Vitrine (comentários sobre a coluna anterior)
La mort, toujours la mort. Mais c’est la vie. Rien de plus que la vie.
Marião, desconfio que o francês é a melhor língua para se falar nesse assunto.
Caro Mário, essa sua inteligência faz todos os assuntos serem interessantes, inclusive a morte … até lembrei de parte do poema da Cecília Meireles e a frase do Rosa sobre ela, nossa certeza de vida:
“Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.
Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícias
do mundo que circula no vento.”
Cecília Meirelles
A gente morre é para provar que viveu.
As pessoas não morrem, ficam encantadas.
G.Rosa
Caríssimo e sábio (Tio) Mario: Vida e Morte ou Morte e Vida… vida é luta com fim certo, mas não anunciado. Mais um belo texto. abs.saudosos. Bom 2012. Rodrigo (Ferreira-Santos), arquiteto e psicanalista, São Paulo.
Mario, gostei, você conseguiu não ser mórbido, trouxe até um alento para os oitentões do mundo, como nós. E, como nós, vivemos a vida e pretendemos (tenho certeza) de continuarmos nossa jornada até que venha um recomeço. Abrações, Luiz Fernando Di Vernieri, um amigão de Campinas, SP.

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