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Dalai, o cão de nome sossegado

Desde pequena (e preciso confessar que já acumulo neste item um tempo razoável de saldo) que choro copiosamente em filmes com personagens cachorro. O …

Desde pequena (e preciso confessar que já acumulo neste item um tempo razoável de saldo) que choro copiosamente em filmes com personagens cachorro. O que não significa, necessariamente, uma novidade para quem já carregou, em mais de um local por onde transitou, em relações familiares, amorosas ou profissionais, o apelido de “manteiga derretida”, soluça agonizante em propagandas de maionese e derrama lágrimas suspeitas em enterro de qualquer ente do sexo feminino ou masculino, mesmo sem conhecer o defunto (que Deus o tenha). Mas, enfim, sempre me emociono, em demasia, nos filmes em que o tal do cachorro aparece como protagonista principal ou mesmo coadjuvante.

Lembro, em detalhes, de filmes mais antigos que me levaram litros e litros de baldes de lágrimas (e embora eu seja uma exagerada típica de geminiana, não existe nenhuma dose de aumento nesta afirmação acima). Os mais conhecidos de todos com mais de 50 anos são aqueles em que a personagem principal (pelo menos para mim) era uma cadela linda da raça Collie chamada Lessie. A cachorra exuberante de pelos dourados e brancos sempre vencia os mais improváveis obstáculos no decorrer dos filmes para chegar a um final feliz quando a placa The End aparecesse.

Quando iria me mudar com toda a família da Rua Doutor Mário Totta para o bairro Bom fim, que me abriga até hoje, foi preciso doar os dois cachorros que ainda mantinha na casa de quintal grande e histórias secretas da adolescência. Por conta deste fanatismo pela Lassie, passava as tardes na janela acreditando que os dois cuscos voltariam para seu lar de origem. E, nesta época, nem tinha mais a tal ingenuidade da infância que sempre serve de desculpa. Até já cursava a faculdade. Mesmo assim, carregava a expectativa de que a vida podia imitar a arte, nem que fosse de vez em quando. Meses depois, um destes cachorros (o que eu mais amava) apareceu do nada seguindo a minha família em um local que sempre frequentávamos. Mas isto é outra coluna.

O tempo, senhor absoluto dos destinos da humanidade, me permitiu ter cachorros de novo há uns quatro anos, ainda que espremida em um apertamento mínimo (sim, senhor revisor, está escrito errado mesmo) e até chegar ao número nada aconselhável de mais habitantes caninos do que humanos. Em decorrência da raiva e da intolerância de vizinhos irracionais, precisei me desfazer de dois netos caninos. O Gandhi, um Cocker tão lindo que poderia passar, com segurança, como filho do George Clooney, e o Ravi, um vira lata hiper legítimo, que apresentava toda a característica de quem veio ao mundo a passeio. Por imposição da minha filha Gabriela, fiquei apenas com o canino Dalai, um shih tzu bipolar. E a exportação dos dois cães parece que acalmou os neuróticos vizinhos.

Pois Dalai, cujo nome já transmite uma paz inerente ao seu significado, é calmo e sossegado. Compreende que sua vó (Yes, esta que vos escreve) precisa sair para trabalhar a fim de assegurar sua ração de boa qualidade e não fica rebelde. Aceita que sua mãe, a filha Gabriela necessita deixar o apartamento para estudar em alguns turnos da semana e se resigna à solidão. E, até entende a minha ausência, um tanto mais prolongada nos finais de semana em que rumo para a casa de meu irmão, em Butiá, aonde vou me deliciar com as travessuras do afilhado Lucas, e o cusco fica sob a responsabilidade, um tanto irresponsável em noites de festa, da sua mãe Gabriela.

Quem não aceita com nenhuma tolerância a sua ausência é esta colunista. E sente, com toda a dor do mundo, a sua falta ao retornar do trabalho e não encontrar o cão ansiado a farejar com seu focinho o vão da porta de entrada. E lamenta com toda a saudade humana e canina a ausência do animal a pular nas suas pernas e mostrar o seu carinho. Tou nem aí (já dizia a música) se ele puxa os fios das meias de nylon (ai, que antigo) com a sua recepção esfuziante. E demonstra, com os sentimentos que dispõe para o momento, a insatisfação com a ideia da filha Gabriela de levar o Dalai para passear justamente na hora do retorno e dos afagos sinceros.

E já que comecei falando em cães como personagens de filmes, me aproprio de uma das citações finais de “Marley & Eu”, de John Grogan, para definir a importância do Dalai na minha vida. “Para um cão, você não precisa de carrões, de grandes casas ou roupas de marca. Símbolos  de status não significam nada para ele. Um graveto já está ótimo. Um cachorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Um cão não julga os outros por sua cor, credo ou classe, mas por quem são por dentro. Dê seu coração a ele, e ele lhe dará o dele. É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa. De quantas pessoas você pode falar isso? Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial? Quantas pessoas fazem você se sentir extraordinário?”.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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