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Das consciências, dos multimídias, das faxineiras e do jornalismo

O sol confortante do último sábado permitia opções de lazer diversas, em todos os turnos e para todos os gostos e idades. A programação …

O sol confortante do último sábado permitia opções de lazer diversas, em todos os turnos e para todos os gostos e idades. A programação de cinema exibia um leque atrativo de filmes. E até mesmo para os preguiçosos de plantão, uma esticada até mais tarde na cama, um café quentinho e uma sessão de DVDs poderia ser uma boa alternativa. Ou um dia dedicado a ouvir de novo todos os CDs da prateleira. Em qualquer canto da cidade, que se abria acolhedora para os seus moradores no final de semana, os caminhos passavam distantes da Assembleia Legislativa, exceto para uma lagarteada na Praça de Matriz ou para os católicos que desejavam rezar ou pedir piedade na Catedral Metropolitana.

Mas foi exatamente a Assembléia Legislativa o local escolhido por profissionais veteranos, de meia idade (como esta colunista), focas em atuação, novatos sem emprego e estudantes universitários para debater os rumos do “Jornalismo e as Novas Plataformas de Comunicação como Agendamento da Opinião Pública’”. Alheios aos cenários paradisíacos do lado de fora, os participantes do 35º Congresso Estadual dos Jornalistas discutiam os rumos da profissão, a precarização do trabalho, a invasão dos blogs e dos sites como propagadores de notícias, o uso indiscriminado de fotos nas redes sociais em detrimento de fotos jornalísticas. E, principalmente, buscavam traçar cenários para o amanhã.

Na platéia, o jornalista veterano de cabelos brancos com mais de 70 anos de idade e uns 50 de experiência, dispensava atenção total à palestra sobre o futuro da academia. Um pouco mais atrás, com as pernas totalmente estendidas para alongar depois do almoço e não ser vencido pela vontade da sesta, o estudante de Passo Fundo fazia pequenas anotações e encaminhava perguntas aos palestrantes. No corredor, a jornalista desempregada e vivendo de pensões familiares, reclamava da ausência de café no turno da tarde no Congresso. E nos bastidores, a discussão de nomes para a eleição de delegados, que ocorreria no final do evento, indicando os representantes para o Congresso Nacional, no Acre, em novembro.

Ao pisar no 35º Congresso, na sexta-feira (13) à noite, para a solenidade oficial de abertura, fui dominada por uma sensação estranha. Porque parecia cena de congressos anteriores, com outros protagonistas e coadjuvantes lutando pelos direitos da categoria. Traçando metas para melhorar a participação sindical, pesquisando assuntos que poderiam ser, no futuro, temas de seminários e congressos, convidando pessoas para se integrarem aos núcleos do sindicato. Enquanto nas redações, no fechamento das edições dominicais, os jornalistas veteranos e novatos ignoravam solenemente o local de intensos debates sobre o seu futuro. Mesmo que o plantão tenha terminado a tempo de comparecer ao congresso, os temas sindicais não costumam seduzir os empregados em grandes veículos.

Aliás, as notas dissonantes do Congresso vieram de dois jornalistas, empregados de um grande meio de comunicação social, palestrantes do evento na manhã. Não citarei os nomes porque não vejo necessidade de queimá-los mais do que eles já fizeram diante de uma platéia de jornalistas. E também por uma questão de ética. Um deles, ao responder uma pergunta sobre sindicalismo, disse que não entendia esta preocupação em reivindicar melhorias salariais coletivas. Segundo o jornalista, por ser multimídia no imenso grupo de comunicação, quando sentiu a necessidade – por trabalhar para mais de um veículo de uma mesma empresa – foi sozinho e negociou o seu aumento. Sem comentários maiores.

A outra, uma colunista em ascensão, também com atuação multimídia no tal grupo, não hesitou ao manifestar sua opinião sobre a criação do Conselho Nacional ou Estadual de Comunicação. Juro que ela respondeu assim: “Sou absolutamente contra. E desconheço os projetos”. Este comentário da profissional hipermultimídia que transita no poder fala por si só. Mesmo assim, o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), companheiro Celso Schröder, fez uma bela, eficiente e didática explanação sobre o Conselho Estadual de Comunicação, cujo projeto foi encaminhado ao governador Tarso Genro, depois de um amplo debate com setores representativos da sociedade civil organizada.

Com certeza, a nova associada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, Sandra Costa, que foi ao evento na sexta-feira à noite para receber a sua carteira da Fenaj, saiu enriquecida com as palestras – apesar destes dissabores relatados – e envaidecida pela escolha profissional. A faxineira, que se formou no IPA, depois de muito esforço, andava no segundo dia de congresso, no sábado, com a sua filha Vitória, 11 anos, a tiracolo, escutando atenta as palestras. Saiu convencida da escolha profissional. Ainda que o mercado não a tenha escolhido. E fermentou a sua consciência profissional. Ainda que muitos multimídias não a tenham.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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