Dizem que uma ou outra aplicação de botox ajuda a reduzir sinais menos visíveis de envelhecimento. Comentam que o uso diário de cremes antiidade até pode diminuir sensivelmente as marcas de expressão (termo politicamente correto para a palavra rugas). E falam, também, que a velhice torna os seres humanos mais sensíveis e emotivos (imaginem eu um pouquinho só mais emotiva, eu juro que não vai prestar mesmoooooooo). Já naquela desagradável indefinição de ser melhor idade, terceira idade, idosa ou o que veste mais apropriado em cada um quando já se ultrapassou a segundo a barreira dos enta, declaro em alto e bom som: os anos afloram esquisitices que os próprios anos já não escondem mais.
E exemplifico o que seriam as tais pequenas esquisitices que a idade nos permite, digamos assim, expor. Começo com os mais familiares, que ficam anos e anos camuflados, embora vez ou outra teimem em aparecer antes da hora. Como aquela mania insuportável dos filhos da gente de não entenderem a urgência de determinado pedido. E não se trata aqui de algo de emergência, vejam bem. São pequenas solicitações de rotina. Como, por exemplo: “minha filha, você pode devolver aquela echarpe verde que eu comprei e ainda não consegui usar”. Na realidade, você está dizendo: “agora, neste momento, por favor, imediatamente”. Diferente de “quando você puder, amanhã, sei lá quando”.
Talvez estas necessidades diárias e familiares de pedidos com caráter de urgência sejam porque já não vislumbramos um futuro tão prolongado. Não precisamos lembrar-nos disso a todo o momento para não parecer chantagem. Quem sabe o correto seria dizer: “filha, você pode devolver aquela echarpe porque pretendo usá-la ainda nesta encarnação”. Mas não desejamos alarmar ou ser fatalistas. E poderia citar também a resistência em acatar um pequeno acordo como: “eu faço o almoço e você lava a louca”. Ora, pressupõe-se que tal lavagem de louça seja logo após o almoço e não quando a cozinha estiver atulhada de louça suja.
Ou saindo do ambiente familiar, exemplifico com pequenas e chatas esquisitices que sempre nos incomodaram, mas que só a experiência da maturidade (gostaram?) nos permite apontar livremente. Ainda que somente no nosso íntimo. O que não deixa de ser um apontamento. Como aquele vizinho que desce o elevador após alguma refeição com um palito entre os dedos (que nojo!), Ou aquele cobrador de ônibus (sem nenhum preconceito) que deixa a unha do mindinho mais comprida (eca!). Ou a dona da “venda” onde você compra e está sempre com o lápis atrás da orelha (de última!). Ou o motorista de táxi que faz aquele barulho insuportável quando troca de pedal (valha-me deus).
Arrisco projetar que ficamos menos condescendentes com o peso dos anos (ai, que fatal). Quem sabe menos transigentes com a chegada das dores da idade (é verdade). Ou até menos tolerantes com os pecados de todos os mortais, mas que incomodam muito quando o tempo se mostra menos eterno.
Por conta das esquisitices da velhice, que costumam habitar, principalmente quem aponta tais esquisitices nos outros, deixei passar sem agradecer um lindo agrado feito pelo colega e amigo não mais só virtual aqui do coletiva, o querido Mario de Almeida, na sua coluna de 30 de abril, intitulada “Amanhã é maio”. Com atraso, amigo Mario, digo que me ler na sua coluna é uma homenagem indescritível. E o melhor de tudo, é saber, através da mesma coluna, que você me lê ainda. Que referência melhor eu poderia querer? E em respeito aos meus leitores confessos ou não, peço perdão pela ausência na semana passada. Foi uma indisposição passageira. Uma esquisitice da idade.

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