Colunas

De cumplicidades II

Por José Antonio Vieira da Cunha

Confraria 1523, o livro, foi lançado com um sucesso exuberante, graças ao alegre e amigável público que foi ao Bar do Beto prestigiar a noite de autógrafos. Ao comentar seu lançamento, em texto aqui no Coletiva, disse que a considerava uma obra prima da amizade, ao trazer o relato de 10 mulheres e homens que trabalharam como uma orquestra durante quatro anos e seguem amigos já há mais de duas décadas. E lembrei que aquele grupo superara as dificuldades inicialmente encontradas com ações que foram desde a adesão ao Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade até esforços incríveis para modernizar o ambiente, o que incluiu colocar o sinal da TVE em satélite, a um custo de um milhão de dólares.

Para chegar àqueles bons resultados houve um trabalho institucional anterior que alterou a natureza da TVE e da Rádio FM Cultura. Pouco antes de assumir o governo do Estado, em janeiro de 1995, Antônio Britto pediu a um grupo de amigos que avaliassem a estrutura que seria herdada das duas emissoras, com um desafio: a tevê e a rádio deveriam adquirir de fato e de direito um caráter público, longe das amarras e dissabores provocados pela natureza estatal. 

Durante algumas semanas o grupo se dedicou ao desafio e logo encontrou uma forte inspiração no modelo da TV Cultura, uma emissora então influente e com um alto grau de credibilidade. Encontrara seu caminho entre a tevê oficial, que defende a ideologia do poder, e a tevê convencional, que inevitavelmente precisa atender exigências de ordem mercadológica. 

Os encontros ocorriam em um escritório que Ruy Carlos Ostermann tinha na Getúlio Vargas, e ele foi, desde o início, um dedicado entusiasta daquela pretendida transformação. O Professor, como todos o conhecemos, trazia, além de sua trajetória na comunicação e a formação em Filosofia, a trajetória de ex-parlamentar, deputado estadual que foi durante dois mandatos. Esta experiência foi de grande valia, já que a alteração do estatuto da Fundação só seria possível desde que aprovada via projeto de lei pela Assembleia Legislativa.

Ruy, todos também reconhecemos, é um nome respeitado no jornalismo brasileiro. Comentarista de rádio e TV e cronista esportivo, ele foi o responsável por elevar a régua na qualidade dos comentários e textos esportivos.  Esta exigência ele trouxe para nossas – do grupo participavam Luiz Fernando Moraes e Flávio Porcello, além de Ruy e eu, e eventuais convidados especiais para abordar determinados temas – reuniões que analisavam o futuro da TVE e da FM Cultura. Era quem mais se empenhou também para ampliar o elenco de entidades que seriam convidadas a integrar o Conselho Deliberativo, como os sindicatos de jornalistas e radialistas e representações da universidade e da iniciativa privada.

Lembro que Ruy rabiscou no papel as premissas da situação que se criava e a diferença substancial entre uma tevê comercial e a tevê pública: enquanto uma mira o mercado, outra foca na sociedade; uma tem como cliente o consumidor, a outra, o cidadão; uma tem como natureza essencial o interesse empresarial, enquanto a outra é um serviço essencialmente público. Para dar consistência a este norteamento, o Conselho Deliberativo foi concebido como a principal transformação institucional aplicada, já que foi concebido para ser o orientador e mentor da programação da rádio e da tevê. Por aí passaria a ser exercido e respeitado o caráter público das emissoras, no sentido de que suas diretrizes e filosofia de ação passavam a ser determinadas por algumas das entidades mais representativas da comunidade gaúcha.

Com a mudança, o governo abria mão de um poder discricionário que tinha a seu inteiro dispor para delegar à sociedade a atribuição de gerir os destinos da Fundação Cultural Piratini, a nova denominação sugerida e aprovada para denominar a fundação que administra os dois veículos. A ideia básica se apoiava aí: veículos de comunicação a serviço da sociedade, que é permanente, e não a serviço dos governantes, que são temporários. Ruy foi, naturalmente, o nome convergente para presidir o novo Conselho Deliberativo, o que fez com a competência e o talento de sempre nos primeiros anos do organismo, driblando com maestria as divergências que um colegiado como este inevitavelmente apresenta.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.