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De cumplicidades

Por José Antonio Vieira da Cunha

Primeiro, estava tudo encaminhado para ser em abril de 2020. Aí veio este temporal que parece interminável e fez o que você sabe com nossas vidas. Depois, várias datas foram alimentadas, em janelas de tempo em que a pandemia dava sinais de que cederia, o que também não ocorreu. A melhor oportunidade seria enfim a própria Feira do Livro de Porto Alegre, em novembro, quando o pior aconteceu. Porcello, um de nossos companheiros daquela jornada que estávamos registrando em livro, foi derrubado pela Covid-19 e não voltou mais ao nosso convívio.

Até que este 7 de dezembro de 2021, mais de ano e meio depois do desejo inicial, se apresentou como a data: vamos compartilhar com nossas redes de relacionamento o livro Confraria 1523 – Uma história de parceria e bom humor. Não procure ali nenhum, nenhum valor literário, mas antes uma preciosidade que precisamos valorizar hoje e sempre: Confraria 1523 é uma obra prima da amizade, ao trazer o relato de 10 mulheres e homens que trabalharam como uma orquestra durante quatro anos e seguem amigos já há mais de duas décadas.

Há ali um breve depoimento de cada um. De minha parte, ressalto especialmente o fato de nossa amizade enquanto grupo resistir durante tanto tempo graças a uma espécie de cumplicidade que nos une desde aqueles tempos em que atuamos juntos na direção da TVE e da FM Cultura. Sim, é destes quatro anos, corridos entre 1995 e 1999, que vem a união do grupo que se despediu daquela tarefa com a mais absoluta certeza de que a missão fora cumprida.

Quando assumimos, lembrei aqui outro dia, havia um vazio de gestão e operacional. Era comum a programação da TV ser interrompida por slides que às vezes ficavam três, quatro minutos no ar. As causas eram as mais variadas: às vezes, a fita (naquela época os programas eram gravados em fitas…) da atração estava mastigada e nenhum produtor ou editor havia se dado ao trabalho de verificar antes; outras vezes, a fita estava esquecida em alguma gaveta na redação ou na produção; e pior, houve episódios em que a fita havia sido levada para casa pelo produtor, cioso do trabalho e temeroso de que a caixinha fosse levada por algum colega, já que era um material imprescindível, porém raro.

Superamos aquelas pedras com ações que foram desde a adesão ao Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade até esforços incríveis para modernizar o ambiente, o que incluiu colocar o sinal da TVE em satélite, a um custo de um milhão de dólares – que o governador Antônio Britto, com a sensibilidade de ter sido jornalista, não hesitou em autorizar. 

A Confraria 1523 surgiu espontaneamente com o fim daquele ciclo, e o que o livro traz são relatos divertidos sobre aquelas alegres reuniões do grupo. E, como bônus importante, um resgate histórico sobre a origem das confrarias, graças a um trabalho do incansável Flávio Dutra, meu vizinho aqui no Coletiva.net.

Digo no depoimento que cumplicidade é o que nos move e une, e que não há palavra melhor para representar-nos, pois abriga outras tão amáveis como amizade, camaradagem, colaboração e solidariedade. Foi este espírito que nos uniu ainda antes destas duas décadas, lá em 1995, quando fomos companheiros e participantes de uma diretoria que marcou época na TVE e FM Cultura. Saímos de lá, por força das alterações que a política faz, com aplausos de funcionários e colaboradores destas emissoras, que ainda hoje caracterizam nossa diretoria como uma das positivamente mais marcantes que passaram ali pela Fundação TVE. Este reconhecimento me entusiasma ainda hoje, e de alguma forma é o que comemoramos a cada vez que a 1523 nos convoca para mais uma noitada de alegrias e cumplicidades.

***

Estou na Confraria 1523 com Antonio Bavaresco Jr, Charles Tizato, Eduardo Vital, Flávio Dutra, Lais Porcellis, Liana Zogbi, Pedro Macedo e Sérgio Rotta. Agora falta o Flávio Porcello, que neste lançamento será representado pela filha Paula. São os relatos desta turma, mais o resgate das histórias das confrarias e dicas sobre os principais pratos servidos nos encontros, que fazem a receita deste livro. Que tem também o saboroso prefácio de nosso amigo José Antônio Pinheiro Machado, o querido Anonymus Gourmet, enquanto a capa que imita uma tábua de carne é uma generosidade da Agência Moove. Queremos evitar aglomerações, mas o alô de amigos será muito bem-recebido no lançamento que enfim ocorre nesta terça-feira, 7, no Bar do Beto, a partir das 18h.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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