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De La Coupole aos cines pulguentos da infância

“Eu ia escrever sobre aquele local (La Coupole) que, apesar de só inaugurado na década de 1920, é o que mais se parece com …

“Eu ia escrever sobre aquele local (La Coupole) que, apesar de só inaugurado na década de 1920, é o que mais se parece com o espírito antigo da nossa centenária Confeitaria Colombo.

(Em minha crônica anterior

Bem no centro da principal via de Montparnasse, no número 102 do Boulevard do mesmo nome, num antigo e grande depósito de madeira e carvão, surgia, em 1927, o luxuoso bar e brasserie La Coupole.

A requintada decoração do novo e grande espaço ganhou pinturas de 32 artistas, sendo que a excelência do nível não permite saber qual delas é a de Fernand Léger, trabalho realizado antes de sua compulsória presença na história das artes plásticas.

A inauguração, com a presença de personalidades como Cendrars, Jean Cocteau, Kisling, Vlaminck, com habitués famosos como os escritores norte-americanos da “Geração Pedida”, apenas antecipou o prestígio que aquele novo espaço ocuparia na vida parisiense nos seus mais de 80 anos de funcionamento.

Em verdade, La Coupole é mais um dos endereços onde as personalidades fazem parte da paisagem.

Não sei se, face ao requinte da gastronomia francesa, La Coupole chegou a oferecer, no passado, um cardápio que honrasse as tradições, mas sei que nas últimas décadas sua mesa não passa do “ordinaire”, no sentido de “comum” daquele idioma, mas os preços também não estão muito acima do “ordinaire”.

Semana passada, quando ia fazer alguns comentários sobre o bar onde estive algumas vezes, fui assaltado por uma lembrança que puxou outras lembranças que chegaram até a infância, mas todas hilárias, quando não ridículas.

George Simenon, o prolífero e grande escritor belga (1903-1989) radicado na França, em sua fantástica fecundidade escreveu 192 romances, 158 novelas, além de obras autobiográficas, inúmeros artigos e reportagens assinadas por ele e ainda mais 176 romances, dezenas de novelas, contos e artigos sob 27 pseudônimos diferentes.

Simenon não me lembra um escritor, mas, sim, uma verdadeira fábrica literária.

Qualidade? O Comissário Maigret, seu personagem mais famoso, é considerado, depois de Sherlock Holmes, o grande detetive da ficção policial. Maigret foi personagem de 75 novelas e 28 contos (!), muito acima, pois, da produção de Conan Doyle sobre o lendário detetive inglês: 56 contos e quatro romances.

La Coupole e Simenon? O escritor, não satisfeito em conhecer bem a brasserie, criou a novela A Cabeça de um Homem (La Tête d’un Homme) com o bar como cenário. Um autêntico “jogo de xadrez”, uma maratona mental entre o comissário e o criminoso alimenta uma das melhores novelas de Simenon, a qual entrou numa série inglesa para a TV e foi adaptada para o cinema francês e norte-americano.

Quando, finalmente, Maigret revela para o próprio criminoso as tramas que o levaram à verdade final, este, com a mesma elegância que o jogador de xadrez derruba o próprio rei aceitando a derrota, não faz um único gesto para fugir ao seu tenebroso destino.

Em versões de sua obra para o cinema e para a TV, Simenon é respeitado, sem quebra das sutilezas do seu estilo, exceto na bárbara e imbecil produção norte-americana, onde o criminoso tenta escapar de Maigret numa – adivinhe? – roda gigante.

Minha cabeça, saltando de imbecilidade em imbecilidade na transposição para o cinema de boas obras literárias, estacionou, é claro, no cinema norte-americano, pródigo em querer passar para o espectador como viável o absolutamente inviável. No caso, o pretexto de entretenimento exige que você esqueça que não é imbecil.

A ficção é um jogo que permite todas as propostas, desde que todas as regras expostas sejam respeitadas. Para ficar no cinema, “Ghost” e “ET”, um fantasma e um extraterrestre são absolutamente válidos, pois na narrativa todas as propostas são respeitadas. Em filmes de trocas de tiros, revólver de 7 balas só dispara 7 balas antes de recarregado.

Na ficção “a regra é clara”, como diria o árbitro Arnaldo César Coelho.

Na produção anglo-francesa Chacal – baseada num best-seller de Frederick Forsyth, dirigida por Fred Zinnemann – inteligência e bom-gosto contam a história de um matador profissional contratado para assassinar o general Charles de Gaulle.

O filme de 1973, inspirado em fato real, não agride nunca a inteligência do espectador. Já o roteiro da versão norte-americana de 1997 era de tal forma absurdo que Zinnemann entrou na Justiça para proibir o título Chacal que acabou virando Jackal.

Os produtores norte-americanos, de olho na distribuição, passaram o chapéu pela Europa e pelo Oriente e conseguiram que o filme fosse um produto multinacional, mas com o selo daquele cancro do cinema norte-americano que se dirige a uma cultura de massa, cuja existência e ordem de grandeza são difíceis de acreditar. Mas existem e as produções focadas nesse público desperdiçam talentos notáveis, como, em Jackal, Bruce Willis, Richard Gere e Sidney Poitier.

Uma novela do italiano Giovanni Arpino inspirou o roteiro do filme Perfume de Mulher, de 1974, estrelado pelo notável ator Vittorio Gassman, que no ano seguinte, por esse trabalho, abiscoitava o prêmio da categoria no Festival de Cannes.

Baseado naquele roteiro, o filme de 1992, produção norte-americana com o mesmo nome, tinha como protagonista o não menos notável Al Pacino que, no ano seguinte, pelo trabalho, faturava o Oscar.

Entre compreensíveis modificações, o personagem, cego, ganhou o braço que perdera na guerra e não compreendi o motivo de um demagógico debate entre o personagem e a direção da escola onde seu guia era estudante. Compreendi muito menos o motivo pelo qual o diretor, num lance inesquecível, fez Al Pacino – o cego – dirigir um carro a mais de 100 km/h – terminando ele, o guia e o bólido incólumes.

Será o automóvel apenas um dos ícones da sociedade norte-americana? Onde a origem da psicose cinematográfica pela perseguição automobilística, numa abominável repetição de cenas absolutamente inviáveis? O personagem será mesmo o carro, ou é a perseguição o motivo principal?

Os colonizadores no século XVII de grande parte daquele território eram os perseguidos pela nova Igreja da Inglaterra e, no Novo Mundo, foram os perseguidores dos não-cristãos. Na história daquele país, perseguidos e perseguidores são os mesmos. Nos filmes, ora são os “mocinhos” os perseguidos, ora são os “bandidos”. Se o rodízio entre perseguidos e perseguidores teve início naquele século XVII, não sei, mas que no cinema eles se revezam, eu sei.

Sei, também, que quando eu tinha seis ou sete anos, nas vesperais de cinema aos domingos (chamados ainda de matinées, canto do cisne de uma época onde os letrados brasileiros falavam francês), nos muitos filmes de faroeste a que assisti, as perseguições a cavalo já existiam e a troca de papéis, também.

Como eu sempre torcia pelo “mocinho”, não me conformava que quando perseguido, ele, passando por duas árvores no caminho, não sacava que se pusesse uma corda amarrada nelas, era só esticá-la na hora certa e mandar cavalos e cavaleiros para o espaço.

É claro que, naquela idade, eu nada sabia sobre a colonização daquele país e muito menos que o francês Georges Méliès, considerado o pai do cinema de ficção, iria dar cobertura a psicose e paranoias servidas como entretenimento. Muito menos sobre a imensa diferença cultural entre as plateias da Europa e das Américas. 

Santé e

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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