Todos os anos, o meu primeiro encontro com a proximidade do Natal, retratado nas vitrines das lojas carregadas de enfeites e produtos em promoção e na elaboração do amigo secreto, gera um sentimento estranho de melancolia. Nem sempre ele some até a noite de 24 de dezembro, quando no Brasil ocorrem a tal ceia natalina e a troca de presentes. Às vezes, permanece como uma lembrança indesejada do Natal e aloja-se nos dias intermináveis da minha vida durante o ano que promete começar. Invariavelmente, é a saudade dos natais passados, recheados de ternuras e afetos, que invade minhas emoções.
As mesas fartas de comidas especialmente preparadas para a noite e que serviriam de alimentação no dia seguinte. Uma árvore de Natal colorida e imensa no canto principal da sala. Os presentes, seus laços e barbantes, acomodados numa posição estratégica que estimulava a curiosidade e mantinha o segredo até a hora da abertura. Pendurada no lado interno da porta, uma bota de Papai Noel abrigava os cartões de boas festas enviados nem se sabia de onde. E o ritual tinha a magia do encantamento, do carinho familiar, das conversas colocadas em dia e até de confidências entre primos e primas.
O Natal continua com seus ritos adaptados conforme a conveniência da modernidade. Hoje, a montagem da mesa de alimentação é mais comedida. Sem os excessos gastronômicos. As árvores de Natal assumem tamanhos apropriados à área física das novas residências. Os presentes ficaram na dependência da renda familiar. E a bota perdeu seu lugar de honra porque a tecnologia impõe que se usem os emails e outras ferramentas da informática para transmitir boas festas. Ainda sobrevive a família, com os protagonistas e coadjuvantes oriundos de um formato heterodoxo dos relacionamentos atuais.
Somente a saudade é a mesma nos meus natais. Sem enfeites. Sem laços e barbantes. Sem presente de amigo secreto. Sem fome para avançar na ceia. Sem o colorido das árvores para se esconder. Sem cartão para colocar na bota porque a saudade é uma dor imensa e não caberia ali. E sem rituais de encantamento porque nem sempre é possível, nos dias de hoje, o mais simples e descompromissado ato de encantar-se. E afetos e ternuras distribuídos de forma aleatória nem sempre são bem entendidos.
Não estou adiantada ao falar de Natal no mês de novembro. Nem é o objetivo de queimar etapas e planejar o Carnaval. Tudo tem o tempo certo no calendário e no meu coração. Assim como meu sentimento melancólico de Natal que normalmente ocorre nesta época. Quando, em anos anteriores, eu começava, em novembro, a programar as festas de final de ano, e até o final do mês, estava com os presentes arrumados embaixo da árvore. Hoje, trago uma saudade ardente que imobiliza qualquer planejamento. Às vezes, dói menos. Nem sempre passa.

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