Flávio, um paulista já carioca, defronte ao antigo Cassino Atlântico, no Posto 6 de Copacabana, depois TV Rio e há anos um shopping center com o mesmo nome, ao alcançar o canteiro central da avenida teve a curiosidade despertada por um ponto que, reverberando à luz do sol, parecia uma resplandecente pedra preciosa. Censurou sua cabeça que tentou um abominável trocadilho: será que topei com um topázio? Abaixou-se e percebeu que aquela coisa redonda, com menos de três centímetros de diâmetro, de cobre ou cor de cobre, inda que totalmente apagada pelo tempo, parecia haver sido uma moeda.
Já na calçada da praia, com as narinas impregnadas pelo cheiro dos peixes que estavam sendo vendidos na Colônia de Pescadores, coisa tão antiga que, na sua memória, era um “cartão postal” daquele fim da praia. O cheiro de peixe lembrou-lhe que inda não conhecera o restaurante do Forte de Copacabana, ao lado, aberto para o público há algum tempo.
Lembrou-se, ainda, que daquele forte, em 1922, sob o comando do tenente Siqueira Campos, saíram 18 insurretos contra o governo de Artur Bernardes.
Inda que de paz com a vida e com o mundo, resolveu caminhar em direção ao Leme, como fizeram todos os que morreram naquela jornada suicida e os dois feridos que entraram para a história: o tenente Siqueira Campos e o depois brigadeiro Eduardo Gomes.
Siqueira Campos, já restabelecido e deixando a prisão através de um habeas-corpus, exilou-se no Uruguai, onde se tornou comerciante em Montevidéu. De volta ao Brasil em 1924, como clandestino, retomou as atividades revolucionárias: Levante de São Borja, Coluna Prestes e participante da Conspiração da Revolução de 30, morrendo antes da chegada ao poder, em maio de 1930, num desastre de aviação. Vitoriosa a revolução, dias depois, em 5 de novembro, a cidade Colônia Mineira virou Siqueira Campos, homenagem ao paulista de Rio Claro. Ganhou na Avenida Atlântica, esquina da atual Rua Siqueira Gomes, uma escultura no local onde foi baleado. Também batizou um dos mais belos parques de São Paulo, mais conhecido como Trianon.
Quanto ao tenente Eduardo Gomes, seu passado revolucionário (preso quando ia integrar a Coluna Prestes) não impediu o acesso ao topo da carreira na Aeronáutica – duas vezes ministro -, tornando-se inclusive o patrono da Força Aérea Brasileira, assim como também duas vezes candidato à Presidência, derrotado por Dutra (1945) e Getúlio (1950).
Ao passar pelo Miramar, Flávio sorriu ao lembrar-se do roof do hotel em cuja pista de dança bailara algumas vezes.
Ao passar pelo Debret, a lembrança foi a conta de propaganda que ganhara quando a dona transformara um edifício de apartamentos em hotel. Uma associação de ideias levou-o à Rua Domingos Ferreira, Hotel Toledo, também um edifício residencial mudando de atividade naqueles anos 1960. Tendo que vir ao Rio às vésperas do Carnaval e sem reserva de hotel, não queria ser obrigado a dormir em casa de mulher que cobrava do freguês a dormida acompanhado. A solução foi encontrada logo no Santos Dumont, balcão do Touring, naquele hotel que acabara de abrir, em Copacabana!
Ainda que a viagem fosse paga por pessoa jurídica, ao ser indagado, optara por apartamento de solteiro, que lá chegando entendeu ser um mal adaptado quarto de empregada. O “armário” era uma cadeira! Ao descer para a recepção e pedir traslado para uma acomodação decente, não se conteve e fez uma pergunta sem resposta: – Qual é o sistema no apartamento de solteiro, o hóspede dorme dentro e a bagagem fora ou ao contrário?
Já havia passado pelo bar e restaurante Alcazar quando veio à memória que naquele terraço pontificava Augusto Frederico Schmidt para um ávido trio mineiro: Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Instigante a figura de Schmidt, um belo poeta, bem sucedido homem de negócios, editor inaugural de Gilberto Freire e Graciliano Ramos, fundador do primeiro supermercado carioca (Disco), ghost writer de JK, cidadão sempre ligado ao poder para o qual prestou inúmeros serviços. Uma cabeça racional carregando um espírito sensível, ambos nunca bem iluminados no sentido mais popular.
Ainda com lembranças do Alcazar, brindou mentalmente aquele primeiro chope tomado lá como cidadão carioca. Deu-se conta que, face à história de nossa moeda, seria impossível lembrar quantos cruzeiros custara aquele chope, mas lembrou de que na mesma época, 1955, um prato feito em restaurante da Lapa custava 12 cruzeiros.
Há pouco, tentando num trabalho levantar números sobre a inflação brasileira, chegara a um formidável resultado sobre a nossa moeda.
Resumo de uma ópera que não é do Carlos Gomes: desde a substituição do real (plural réis) pelo cruzeiro, em novembro de 1942, quando mil réis passaram a valer um real, foram cortados 1.000.000.000.000.000 de zeros de nossa moeda, nos seus diversos nomes.
Em 1º de julho de 1994, Itamar presidente e Fernando Henrique Cardoso ministro da Fazenda, foi implantado o real (plural reais) – 2.750 cruzeiros reais = 1 real. Então, desde os mil réis, a moeda foi desvalorizada 2.750.000.000.000.000.000, ou seja, dois sextilhões e 500 quintilhões vezes.
No Brasil, como em todo o mundo, a moeda das primeiras atividades econômicas foi o escambo – barganha, permuta –, ou seja, a troca de mercadorias. O índio entregava pau-brasil aos portugueses nas caravelas e recebia bugigangas como apitos, espelhos e chocalhos.
Durante muito tempo a escassez de moedas era global e, no Brasil, açúcar, couro, toucinho, porcos e até palha tinham valores estimados para efeito de escambo.
Em sermão de 1653, no Maranhão, o padre Antonio Vieira refere-se ao “pano de algodão” como moeda, onde também o simples fio era moeda. Corrente.
Flávio voltou a olhar com atenção aquele círculo que parecia ter sido uma moeda de cobre e perguntou-se se o acaso não pusera em suas mãos uma daquelas primeiras moedas de cobre chegadas ao Maranhão por acidente: a embarcação que levava numerário para Pernambuco naufragou naquelas costas, isso lá por 1750.
Lembrou-se das décadas de inflação, quando a correção monetária oficial jamais batia com a correção – muito maior – de suas despesas mensais.
Lembrou-se de um empresário falido, ministro da Fazenda de Sarney, lembrou-se do over night e, num frêmito de nojo, jogou fora aquele pedaço de metal.
Fosse o que tivesse sido a coisa, Flávio fez o exorcismo daquele passado monetário quando zeros eram amputados todos os dias.
Deixem-me em paz, orou.
Inté.
Leitor na Vitrine
Mario,
nessa história do Arruda, um fato me chocou. Não sei se você se deu conta: o deputado “cão-de-fila” do Arruda, preso junto com ele, é ninguém menos que nosso ex-colega de Globo, Geraldo Naves. Lembra-se? Aquele gerente de programação boa-praça. Começou em Minas, veio para o Rio com o Buzzoni, foi transferido para São Paulo e depois para Los Angeles, onde implantou a UHF do Joe Wallack. Repatriado, montou uma vídeoprodutora em Minas. Aí, perdi o contato com ele. Agora, fico sabendo que, depois da produtora, virou pastor evangélico e apresentador de um programa de TV em Brasília, nos moldes do Datena. Popular com o programa, pousou nele a mosca-azul da política…
Nosso ex-companheiro de cafezinho no Bar e Restaurante Calamares, hoje dorme na Papuda. Foi pego ao tentar subornar jornalista. Triste Brasil.
Abração,
Gustavo (Borja Lopes)

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