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De perto ninguém é normal

Por Flávio Dutra

Quem diria, Lula tem se derramado em elogios ao presidente Trump.  “No contato pessoal é outra pessoa”, teria falado ao próprio americano, na conversa telefônica que mantiveram por 40 minutos. A impressão passada pelo presidente americano coincide com o insuspeito depoimento de Raquel Krähenbühl, correspondente da Globo em Washington. Segundo ela, em pesquisa informal com o pessoal de apoio na Casa Branca, Trump aparece como o mais cordato e gentil dos últimos presidentes americanos, bem diferente no trato pessoal da persona carrancuda que aparece nas entrevistas à TV.  Bush filho também era bem cotado na preferência dos serviçais, enquanto Obama surpreendia pelo distanciamento que mantinha com o pessoal de apoio e a mídia credenciada na Casa Branca. Um comportamento quase arrogante de Obama, mas que mudava integralmente nas aparições públicas, quando irradiava simpatia.

Esse depoimento comprova o que canta Caetano Veloso em Vida Profana: “de perto, ninguém é normal”, ou, usando uma corruptela, longe das câmeras ninguém é normal.  E me remete a um texto que cometi tempos atrás sobre as reações de nossas celebridades artísticas diante do assédio do público.  Vários deles foram reprovados no quesito receptividade aos fãs, se bem que falar mal dos famosos é um esporte nacional.

Poderia enumerar muitos exemplos, incluindo lideranças políticas que só assumem o figurino de gente boa em período eleitoral.   Porém, todos eles têm que saber que a regra é clara:  quem tem exposição pública não pode se valer disso para destratar aquele que é obrigado a conviver com o famosinho.

A propósito, lembro também que já escrevi sobre um confrade de minhas relações que costuma julgar as pessoas nas dimensões física e jurídica.  A física diz respeito aos atributos pessoais – caráter, personalidade, atitudes – e a jurídica ao desempenho profissional – competência, entregas, relacionamento funcional, comprometimento.  Assim, não é raro se referir a um conhecido no condicional:

– Na física é uma rica de uma pessoa, mas, na jurídica, um baita incompetente.

Também é recorrente a sentença inversa:

– Na jurídica é um grande profissional, mas na física um péssimo caráter.

Nesta minha jornada septuagenária   sou tentado a concordar com o confrade, eis que tenho convivido com gente de todas as espécies.  Conheço perfis, especialmente entre as chamadas pessoas públicas, que induzem a grandes enganos com suas atitudes.  Fina flor da meiguice para efeito externo, nas internas são verdadeiros déspotas.  E parece haver uma relação direta entre a ascensão do sujeito e a incivilidade: quanto mais poderosos, mais autocráticos. Os piores são aqueles que recebem um carguinho e acham que são deuses.

– Dá-lhe o látego e conhecerás o tirano, – dizia, algo solene, um diretor de rádio que conheci no passado, ele mesmo um especialista em disseminar o terror entre os seus colaboradores.

O látego, para quem não sabe, é o chicote usado pelo verdugo para flagelar suas vítimas. As vítimas são todas aquelas obrigadas a conviver com os opressores de plantão, porque o sujeito mal avaliado na jurídica, mas de boa índole, ainda passa, porém, o contrário não é verdade. Do jeito que vai, daqui a pouco seremos obrigados a imitar Diógenes, que saia às ruas na Grécia antiga carregando uma lamparina, alegando que estava a procurar um homem honesto e íntegro. Detalhe: o filósofo era conhecido como Diógenes, o Cínico, o que deve significar alguma coisa sobre o caráter dele.

Na verdade, Diógenes procurava a virtude de uma vida simples e natural, dessa simplicidade e espontaneidade de que são feitas as pessoas do bem, que prescindem do látego porque são integras na física e na jurídica. Se me pedirem nomes dos outros, nem com látego revelo.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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