Nem tão de repente como tudo ocorre no Soneto de Separação, do poetinha Vinícius de Moraes, que recebe justas homenagens neste outubro de 2013, pela comemoração póstuma de seu centenário no dia 19, a primavera já mudou o cenário carrancudo da cidade no inverno. Tudo fica mais leve, mais pueril, mais ameno e primaveril. As ruas ganham a presença de pessoas mais dispostas a permitir um convívio menos sisudo. Os bares se preparam para um crescimento de público nos encontros dos finais de tardes. E a população de Porto Alegre abandona o conforto de seus lares, despe-se da preguiça, invade os parques e aposta em programas.
É visível a transformação da capital gaúcha com a entrada da primavera. Não só as árvores se enfeitam de flores de outubro. Não só os parques se colorem de cores de felicidade. Não só os dias se tornam mais longos. Não só as noites se apresentam mais convidativas aos amores e encontros. Os moradores de Porto Alegre também sofrem uma mudança radical. Na fisionomia. No corpo. No visual. Nas roupas. Nas vontades e nos desejos. Nos planos e nas expectativas. Novos retratos se apresentam. Os ares primaveris incentivam o convívio social, o embelezamento do corpo e da alma. Do corpo, porque é usual a corrida para melhorar o aspecto para o verão. Da alma porque é aconselhável para manter qualquer assunto sempre atualizado.
Os casais se tornam mais enamorados. Ou então, desfazem relações antigas para investir em outros personagens. Afinal, a primavera não admite sentimentos mornos, tensos ou enrolados. Tudo tem que estar perfeitamente resolvido para admitir programas ousados, planos mirabolantes. Como se cada momento fosse uma pré-estreia de um filme super esperado. As amizades se solidificam e permanecem para sempre. Ou então, são desfeitas em definitivo (mesmo que o definitivo seja um futuro incerto). Afinal, a primavera exige mais das amizades. Que elas sejam realmente fieis, assíduas, comprometidas. Que elas resistam aos convites negados no inverno e que já aceitem os futuros compromissos do verão.
E para que a vida seja uma eterna aventura errante, como escreveu Vininha no final do Soneto da Separação, é adequado saudar a primavera com flores de todas as cores e tamanhos. Rosas brancas ou amarelas (as mais lindas). Violetas. Gérberas. Margaridas (que eu amo). Orquídeas (as preferidas do mano Dédi). Para que a primavera seja uma visita bem recebida, é ideal perfumar a casa, variar no aroma dos incensos, diversificar na cozinha, aprender novas sobremesas, renovar o estoque das cervejas e dos destilados. Para que a primavera, enfim, se instale nas nossas vidas, é sugestivo abusar dos risos, dos sorrisos, das gargalhadas. A primavera não admite ninguém triste.
Ao contrário do inverno, que estimula o enclausuramento, ou do verão, que favorece a migração para o litoral, a primavera agrupa, acolhe, enfeita, estimula, expõe e apaixona. A primavera não aceita cara feia, mau humor, colisão de agendas, falta de dinheiro e desculpas esfarrapadas. Definitivamente, a primavera é a estação para sair para a vida.

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