“Não é o que você colheu, mas o que você distribuiu
que mostra a vida que você viveu.”
(José Larralde, payador uruguaio)
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Parecia que o peão Edu estava falando sozinho – mas acho que o que ele queria mesmo é que a gente ouvisse o que ele dizia. Ele falava mais ou menos assim:
“Tu sabes, moço, que o tempo tem por hábito passar ‘ligeirito’ quando estamos de costas, entretidos com as coisas do dia-a-dia. Os bugres lá da reserva dizem que o tempo é como uma ventania, que sopra de repente, carregando pra longe as coisas que achamos que vão durar para sempre.”
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Mesmo depois de tantos anos, ainda recordo as conversas do velho Edu. Ele morreu faz tempo e a reserva dos bugres virou um descampado ermo, sem árvores, nem nada. Nas noites sem lua, muita gente muda de caminho para não passar por perto. Dizem que se ouvem vozes e gemidos. O que não me assombra nem um pouco – o que me perturba é a tal ventania que leva tudo embora.
Eu sentava nas cadeiras de espaldar da sala da frente e ficava olhando os rostos sérios nas molduras ovais na parede. Parecia que eles sussuravam:
“Cuidado com o tempo, cuidado com o vento.”
Intrigado, um dia perguntei ao avô como as pessoas velhas sentem o tempo passar. Ele ergueu-se e foi dar corda no relógio na parede. Guardou a chaveta no bolso do colete, me olhou e disse:
“A vida da gente é como um relógio, sempre marcando as horas e os dias. Não importa quanto tempo se vive, importa o que se fez e o que se deixou de fazer. Tu ainda estás na primavera, enquanto eu já cheguei ao inverno, mas não tenho tristezas nem raiva guardados.”
Uma pausa, a tosse seca, a voz pausada:
“Quando me ouvem, digo – moços, não esperem o inverno chegar. Se querem construir coisas, comecem logo, pois os relógios estão fazendo tic-tac, tica-tac…”
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Quando vejo meus cabelos brancos no espelho, lembro como os velhos de ontem cuidavam de seus jovens. Com certeza, sabiam como a vida é e tentavam preveni-los, mas poucos os ouviam. Um deles se queixava de ter esquecido o que fizera no dia de ontem, mas lembrava dos almoços na grande mesa à sombra da antiga mangueira, os irmãos saboreando a costela assada, as mulheres trazendo canjica com leite, enquanto as crianças e os cachorros olhavam de longe.
(Eu nem estava lá, mas sabia bem como devia ter sido.)
Muitos daqueles não estão mais aqui, ou ficaram cansados, andando devagar para não cair. Dizem que não têm sono, mas cochilam lendo o jornal. Um confessa, dando risada, que vai mais vezes à farmácia comprar remédio do que ao bar jogar baralho.
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Parece que o avô tinha razão, quando avisava:
“Hoje é o dia mais velho de teu passado
e também o dia mais moço de teu futuro.”


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