Estava com a cabeça focada na promessa de escrever sobre as catacumbas de Paris, mas alguns e-mails de amigos, principalmente este, cujo trecho reproduzo, me aconselharam a voltar ao Cemitério Père Lachaise.
“Mario,
na área musical, o Père Lachaise abriga Chopin, Bizet, Rossini, Montand, Piaf, e… o roqueiro Jim Morrison, ícone maior da banda americana The Doors. Vocalista apenas razoável, mas com uma personalidade sombria, soturna e, ao mesmo tempo, irresponsável. Merece estar lá (…) Abração. Gustavo”.
O remetente, meu amigo Gustavo Borja Lopes, já esteve aqui em Coletiva, provando que malandro é o cara que come um bacalhau e arrota só meio.
Dei-me conta que gerações e afinidades à parte, mesmo sem nada a ver com a The Doors, eu não tinha o direito de omitir o Jim Morrison da minha crônica sobre o Lachaise, pois seu túmulo é a maior vedete popular do cemitério, cujo site oficial – que eu consultara – destaca a importância do músico naquele espaço:
“Jim Morrison (1943-1971), líder do Doors, banda americana de rock dos anos 60, foi encontrado morto na banheira de seu apartamento em Paris e foi enterrado nessa cidade mesmo. Seu túmulo virou local de peregrinação: estima-se que 1 milhão de pessoas passem por ele a cada ano. Alguns fãs mais exaltados chegavam a consumir drogas e a transar no local. Por isso, hoje o túmulo do alucinado roqueiro é vigiado 24 horas por dia.”
Achei que a omissão – proposital – referia-se ao fato que eu citara apenas personalidades cuja obra ou importância fossem de meu conhecimento e admiração, pois Honoré de Balzac, por exemplo, em muitas de suas oitenta e tantas obras, só na “Comédia Humana”, deu-me aulas sobre a França e sobre a nossa condição humana (“Não és bom, nem és mau: és triste e humano…” Bilac), escreveu algumas delas no próprio cemitério. Interessante notar que o autor de pelo menos duas obras geniais – “Eugênia Grandet” e “Pai Goriot” – tenha ficado muito famoso por sua obra menor “A Mulher de Trinta Anos” – mulher que virou a “balzaquiana”.
Talvez minha omissão tenha sido por eu estar de saco cheio com o espaço e tempo gastos na mídia com a morte de Michael Jackson (também ausente dos meus interesses) – saco que eu já supunha mais que cheio com este presidente tão obcecado com sua sucessão que reescreve a própria biografia e a tão propalada ética do PT (suspiros).
E foi por ética que voltei ao assunto. Esqueci que a crônica não era sobre música, que me daria o direito de nem citar Morrison, mas sendo sobre o Lachaise, era citação obrigatória. Vacilo meu.
Obrigado, Gustavo.
Meu vizinho e amigo Aderbal Moura, dizendo juntar-se ao meu “passeio fúnebre”, mandou-me abraços, o desenho representando a ceifadora, “afinal esta é a única certeza que temos em vida”, e cita Oscar Wilde, um dos residentes no Père Lachaise:
"(…) Morte é o fim da vida, e toda a gente teme isso, só a Morte é temida pela Vida, e as duas refletem-se em cada uma (…)"
Günter Krähenbühl é um poeta de São Paulo, jovem estudante de Medicina, que me conheceu virtualmente aqui em Coletiva e, grande coincidência, sobrinho do antigo amigo pessoal, poeta Pedro Morato Krahenbühl, que decidiu não enfrentar a inevitável e futura glória e desistiu da vida muito antes de escrever os poemas que escreveria.
Este “Poema Oculto” revela a grandeza do companheiro da biblioteca municipal paulistana nos anos 1940/50:
Vê que teu verso não ande aceso
onde anda a noite.
Não lhes dispenses a noturnidade.
Põe nas vigílias em que demoras
as nebulosas do pensamento.
Falso episódio,
seja teu sorriso mancha tênue,
mas perceptível na face das coisas.
Guarda-te,
armeiro próprio,
forjando palavras que te livrem,
quando o sonho vier disputar,
à tua vontade, tuas mãos.
“Mário,
Bela viagem pelo Reino dos Mortos.
A partir de hoje comecei a acreditar em coincidência… rs.
Ontem comecei a escrever uma poesia que tratava da minha morte (ainda não terminei)…
Entrei numas viagens daquele Tríptico do Bosch (O Jardim do Éden, O Jardim das Delícias Terrenas e o Inferno) e num som psicodélico dos anos 1960 (Arthur Brown).
Estou tentando abordar o tema de uma maneira natural… Ninguém sabe se morrer é bom… Então aproveitemos a vida e a morte… p q não??? A minha morte escrita por mim mesmo… Com as minhas vontades! Talvez um pouco macabro… mas o tema é interessante… e ceifa verdadeiros desafios à criatividade…rs.
O seu texto me deu forças para escrevinhar alguns versos a mais neste meu poema…”
E o poeta segue contando-me coisas de suas criações e me enredando, também, em mais coincidências. Ele não poderia saber que, nas minhas costas, na parede do escritório, está uma cópia do tríptico do Bosch à qual se refere, cópia adquirida no Museu do Prado, onde se encontra o original. (Quem manda a gente se enredar com a Morte?).
Hoje dei testemunho de como o meu prazer de escrever também se gratifica ao ler coisas dos leitores.
Obrigado, amigos.


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