Colunas

Debates x sabatinas

Os debates eleitorais estão perdendo espaço para as entrevistas individuais com os candidatos, as sabatinas. As candidaturas firmaram convicção que tem mais a perder do que a ganhar nos debates, especialmente quando estão ponteando nas pesquisas e viram o alvo preferencial dos outros candidatos. Em caso de segundo turno, aí os finalistas vão para o enfrentamento, pau a pau, porque um mau desempenho nos debates pode representar a derrota eleitoral e o não comparecimento recebe a pecha de “fujão”.

O formato engessado dos debates, mesmo que a Globo tente algumas inovações, exige uma preparação especial. 

Funciona assim: os adversários conhecem as fragilidades um do outro e vão explorá-las ao extremo para descredibilizar o outro lado. É preciso ter todas as respostas prontas, ser assertivo nas afirmações, ao mesmo tempo em que na sua vez de questionar, o mínimo que se espera é que contra-ataque com firmeza, forçando o erro do adversário. É muito desgaste de parte a parte. Entre um e outro embate, os candidatos tentam vender seu peixe, falando de seus programas de governo, que muitas vezes não passam de peças de ficção.

Nas sabatinas o clima é outro, menos tenso e até sobra tempo para tratar de projetos futuros e assumir compromissos com o eleitorado. Esse cenário, entretanto, não vale para o programa Entrevista com o Candidato que a Globo apresentou na semana passada com os seis candidatos mais bem avaliados na pesquisa Quaest. Para não ser acusada de oficialista, a Globo partiu para o ataque, selecionando uma questão de desgaste para cada candidato – só para exemplificar: as relações de Lulinha com o INSS para Lula, o “patrocínio” do Banco Master para o filme sobre Bolsonaro pai, no caso do Bolsonaro filho – e sobrou até para o escritor dos livros de autoajuda Augusto Cury, que fechou a série de sabatinas e teve que se explicar sobre a viabilidade de suas propostas. 

Com isso, a Globo conseguiu desagradar a todos, mas principalmente lulistas e bolsonaristas no tribunal das redes sociais. Nas bolhas de cada um, os entrevistadores Cézar Tralli e Renata Vasconcellos foram parciais e agressivos com seu candidato que, na avaliação da militância, saiu-se vencedor no embate. Na verdade, Lula foi desmascarado quando afirmou desconhecer a “pilantra” (termo que ele mesmo usou) Roberta Luchsinger e Flávio Bolsonaro continua devendo esclarecimentos sobree a aplicação do recurso do banco do Vorcaro para filme Dark Horse.

A rigor, só Ronaldo Caiado conseguiu passar pela sabatina sem grande desgaste porque adotou uma estratégia que Brizola usava com maestria: quando a pergunta não interessava respondia sobre outra coisa, desnorteando os entrevistadores.

Os criticados Tralli e Renata ficaram reféns do formato das sabatinas da Globo com presidenciáveis desde o tempo em que o espaço fazia parte do Jornal Nacional, a partir de 2014, na gestão Willian Bonner. Os entrevistadores sempre pesaram a mão contra os entrevistados e agora não poderia ser diferente. A diferença talvez esteja na estratégia adotada para os interrogatórios atuais, com Renata apresentando as perguntas mais incisivas, enquanto Tralli fazia cara de paisagem e abusava das formalidades. Assim a produção do programa acreditava que ficava mais difícil ao candidato ser desrespeitoso e agressivo com a entrevistadora, podendo ser enquadrado como misoginia ou um desses termos modernosos, tipo “gaslighting” quando a informação feminina é distorcida ou manipulada.

O certo é que Tralli e Renata não vão para o segundo turno da eleição. A Globo já anunciou que Renata Lo Prete, âncora do Jornal da Globo, será a entrevistadora das sabatinas com os presidenciáveis, em caso de segundo turno. O anuncio foi feito antes mesmo das entrevistas conduzidas – e criticadas – de Tralli e Renata, mas a substituição sempre vai passar a ideia de que foram mal sucedidos na empreitada, quando, na realidade, apenas seguiram a risca o roteiro traçado pelo jornalismo da Globo desde 2014. 

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.