Ao chegar ao sul da França, fui advertido – por vozes e resmungos – sobre a chegada dos ventos de outono, principalmente, do temido Mistral, conhecido dos antigos mediterrâneos como o “vento catabático”, aquele que “desce colinas e arrasa planícies”. Mas também fora avisado de que um Mistral forte é sinal garantido de boas safras de vinhos da Côte de Rhones e da Provence.
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As coisas começaram a fazer sentido quando correu o boato de que o festival de vinhos de Chateauneuf-de-Pape e o desfile dos cavaleiros da Camargue, em Arles, poderiam ser cancelados. No entanto, em Aix en Provence, a tradicional feira de flores estava funcionando normalmente, debaixo de um incrível céu azul-cobalto, sem uma nuvem sequer.
No bistrot, a um canto da praça, procurei no “Le Provençale” notícias de catástrofe iminente. Não havia nenhuma. Mas não deixei de notar que o velho garçom, ao me servir um Pernod, espiava para o céu com o cenho carregado. Indaguei dos motivos de suas preocupações e ouvi apenas três palavras:
“ – O Mistral está chegando”.
Eu já havia lido sobre os mitológicos ventos que sopram ao longo do Mediterrâneo. Como o Sirocco, um vento de verão, que assola o sul da Europa, trazendo as areias quentes do Norte da África. E, o mais temido de todos, o Mistral, vento de lendas e mistérios, que desde tempos imemoriais assombra homens e devasta colheitas. Os provençais o tratam respeitosamente de sâcre vent, que nasce nas vastidões geladas do Norte, percorre as planícies da Europa Central, desemboca no vale do Ródano, chegando ao Mediterrâneo com a força de até 180 quilômetros por hora.
Em pleno outono, o Mistral é capaz de derrubar, em poucas horas, as temperaturas de 25 graus positivos para 10 negativos. As pessoas fecham as lojas, trancam as janelas e os camponeses cobrem seus vinhedos. No sul da França correm muitas lendas sobre o sâcre vent, mas levando-se em conta a fama dos provençais em exagerar tudo o que contam, não dá para acreditar em porcos voando sobre o monte Luberon nem em grávidas parindo antes do tempo.
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O velho garçom Maurice nota que eu também olho para o céu com ares de preocupação e tenta me apaziguar, lembrando que a safra do vin du pays estava excepcional. E arremata, me alcançando o cardápio do dia:
“ – Para os desastres da vida, existem os prazeres do coração”.
Deixo de lado a ameaça do Mistral e vou conferir o cardápio e a lista de vinhos. Não tenho muito tempo para pensar, pois da cozinha chega o pungente aroma de um refogado em alho, ervas e azeite de oliva. O volumoso chef, de bigodes à Asterix, está preparando uma Casserole de Fruits du Mer, usando generosas mãos-cheias de camarões, lagostins, carne de caranguejo e grandes nacos de lagostas.
Pela janela, vejo os longos ciprestes ondularem com a brisa que sopra do mar, enquanto o calor do dia desaparece como por encanto. No entanto, as pessoas ao meu redor não parecem preocupadas, atentas ao jovem sommelier, que chega empurrando um pesado carrinho com garrafas de vinho, acomodadas em um grande berço de gelo.
São os vin de pays do ano, que os provençais juram ser de uma safra abençoada pelo sâcre vent. Enquanto a comida não é servida, o sommelier anuncia uma seleção de vinhos do Château Val Joanis e os garçons enchem os copos com um branco bem seco, de cor palha dourada, chamado Les Aubépines. O segundo branco é frutado e levemente rosado, o Les Merises. Depois é a vez do Les Agasses, 100% viognier, intenso no aroma e no sabor. Deve cair bem com frutos do mar.
Copos cheios, chega a hora do chef de bigodes à Asterix apresentar a casserole. As pessoas saudam sua entrada com palmas e as primeiras garfadas são acompanhadas por interjeições que variam de agradável surpresa (no meu caso), ao encantamento (no caso do restante dos comensais).
Em minutos, o murmurar da conversação, o tinir dos talheres e o tilintar dos copos transformam o pequeno bistrot em um ambiente prazeroso e desfrutável. No carrinho do sommelier, as garrafas de vinho se esvaziam uma após outra, mas o atento Maurice me alcança a última garrafa do excelente viognier.
A tarde passa suavemente e, após duas doses de marc, saio de alma limpa. Os ventos haviam cessado e na praça podia se sentir o perfume de lavanda, vindo dos campos próximos. Sobre o mar, ameaçadoras nuvens negras, mas não havia sinal do Mistral.
O velho garçom Maurice expressara bem a sabedoria provençal – nada melhor que os prazeres do coração para enfrentar os desastres da vida.


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