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Desculpem-me, baixei o nível

POEMINHO DO CONTRA Todos estes que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão. Eu passarinho! (Mário Quintana) O acadêmico José Sarney é um …

POEMINHO DO CONTRA

Todos estes que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!

(Mário Quintana)

O acadêmico José Sarney é um exemplo de que a Academia Brasileira de Letras, ao eleger seus “imortais”, nem sempre tenta valorizar aquela atividade que fez de seu fundador, Machado de Assis, um nome eterno nas letras brasileiras.

Antes, ao eleger Getúlio Vargas como um de seus membros, a ABL já dera mostra de ser uma casa onde a inconveniência pode ceder a conveniências maiores. Exemplo mais claro que Getúlio Vargas, estadista eterno na nossa história, mas sem nenhuma referência mais séria com as nossas letras?

Quando Sarney foi eleito para a ABL, em 1980, seus adversários e inimigos acusaram a Casa de haver favorecido o escritor de um único livro de má poesia, Marimbondos do Fogo (1978).

Anos depois, um blogueiro, batendo na mesma tecla, escreveu que seria melhor haver eleito o já senador se não tivesse escrito o livro. Maldade, né?

Não sou crítico literário e me calo quanto à qualidade autoral, mas não aceito a alegação da quantidade, pois Sarney já havia dado a luz ao ensaio A pesca do curral, em 1953, às poesias de A canção inicial em 1954 e aos contos O canto norte das águas, em 1969. Como não li referências e não os li, nada sei a respeito.

Mas o absurdo daquela eleição de Sarney foi a ABL eleger Sarney, preterindo um candidato que agregaria prestígio à Casa e desde há muito já era eterno no coração dos amantes de sua prosa, de sua poesia e de sua aura de anjo: Mário Quintana.

Mas como acadêmico, José Sarney, em seu quarto mandato no Senado, ao qual preside, conseguiu devolver a um vocábulo da língua portuguesa seus significados originais, no caso, “formidável”: medonhamente grande, terrível, pavoroso.

Outro dia, O Globo publicou uma página só de haicais (hai-kais), sempre em três versos, mas nem sempre obedecendo às rígidas regras do poema de origem japonesa. O interessante é que Arnaldo Bloch, o responsável pela seleção e identificação de cada um com a atualidade, “caçou” um do Millôr Fernandes, de lá pelos anos 1960, identificando-o como “A Crise no Senado”:

Com que grandeza

Ele se elevou

Às maiores baixezas!

Há muito tempo, por uma questão de nível, proibi-me de escrever aqui sobre a política nacional. Certas coisas me incomodam mais, não por essa política de varejo da vergonha nossa de cada dia, mas pelo desrespeito elementar à lógica.

O Globo, numa excelente matéria, flagrou e provou, com fotos que, numa sessão de quinta-feira, dezenas de deputados federais batem o ponto de presença na Câmara, e pouco ou horas depois, vão para o aeroporto e embarcam para os seus destinos.

A justificativa não demorou: havia um acordo para só as lideranças votarem uma pauta com consenso da maioria e, portanto, não há uma descontinuidade no trabalho.

Este leitor de Candide, de Voltaire, pergunta:

Se tudo é legal, qual o motivo para bater o ponto? Ou o erário paga esse dia de não-trabalho dos faltosos?

Será?

Só um tonto

Sem motivo

Bate o ponto.

Apesar do nosso camaleão ambulante, o camelô de si mesmo, querer ensinar à imprensa que sua atividade é apenas informar, informo que a matéria investigativa de O Globo deu à Câmara Federal, na última quinta-feira, uma presença nunca dantes registrada naquele dia da semana.

Sei que não dá para pedir ao boquirroto do Alvorada que cale mais a boca, mas não há compulsão que um dia não se resolva.

Inté.

 

Autor

Mario de Almeida

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