
“Revendo fotos antigas concluí que já fui feliz…”.
Clarice Lispector.
O homem magro andava sem pressa por uma alameda forrada de folhas amarelas e vermelhas. O mesmo caminho que percorrera em sonhos recorrentes, herdados de tempos passados. E que terminava sempre no mesmo lugar – um banco de pedra na praça onde as crianças do bairro brincavam, fingindo ser adultas. Mas que ainda não sabiam que o melhor da vida é ser criança.
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Nas noites quietas, quando o sono demorava, ele tinha por hábito repassar cenas passadas quando felicidades rondavam por perto. Um amigo poeta lhe dizia que é inútil procurar pela juventude perdida, porque somos incapazes de saber quando e como fomos felizes. E ele não tinha certeza se aquele banco de pedra coberto de folhas de Outono existia de verdade ou era apenas uma parte de seus sonhos.
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Um certo vento sobe do rio, sussurrando que ainda existe um caminho antigo com as pegadas dos que vieram antes. Ele está à procura de sinais que não sabe se vai encontrar – uma arruinada ponte de pedra que não conduz a lugar nenhum e as iniciais de apaixonados no tronco rugoso de uma velha árvore.
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Pela manhã encontrou um livro no chão do escritório. Devia ter caído da estante durante a noite. Era um de seus preferidos, a coletânea de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Nas páginas abertas leu:
“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e te espera desde sempre”.
Foi então que se deu conta que o Ano Novo havia chegado, mas ele queria continuar vivendo no Ano Velho.
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Aquela estranha vizinha vivia de luto, enrolada em um chale preto tipo espanhol do qual nunca se separava. E nunca sorria, sempre de testa franzida. Passava pela casa a caminho da praça no alto do bairro. E por lá ficava por um tempo, imóvel, olhando o sol cair sobre o rio. Quando foi saber da mãe sobre ela, ouviu sem entender:
“- Tem pessoas que não conseguem chorar. Estão condenadas à tristeza…”.
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