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Desencontros

“Revendo fotos antigas concluí que já fui feliz…”.

Clarice Lispector.

O homem magro andava sem pressa por uma alameda forrada de folhas amarelas e vermelhas. O mesmo caminho que percorrera em sonhos recorrentes, herdados de tempos passados. E que terminava sempre no mesmo lugar – um banco de pedra na praça onde as crianças do bairro brincavam, fingindo ser adultas. Mas que ainda não sabiam que o melhor da vida é ser criança. 

***

Nas noites quietas, quando o sono demorava, ele tinha por hábito repassar cenas passadas quando felicidades rondavam por perto. Um amigo poeta lhe dizia que é inútil procurar pela juventude perdida, porque somos incapazes de saber quando e como fomos felizes. E ele não tinha certeza se aquele banco de pedra coberto de folhas de Outono existia de verdade ou era apenas uma parte de seus sonhos.

***

Um certo vento sobe do rio, sussurrando que ainda existe um caminho antigo com as pegadas dos que vieram antes. Ele está à procura de sinais que não sabe se vai encontrar – uma arruinada ponte de pedra que não conduz a lugar nenhum e as iniciais de apaixonados no tronco rugoso de uma velha árvore.

***

Pela manhã encontrou um livro no chão do escritório. Devia ter caído da estante durante a noite. Era um de seus preferidos, a coletânea de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Nas páginas abertas leu:

“Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo.

Eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e te espera desde sempre”.

Foi então que se deu conta que o Ano Novo havia chegado, mas ele queria continuar vivendo no Ano Velho.

***

Aquela estranha vizinha vivia de luto, enrolada em um chale preto tipo espanhol do qual nunca se separava. E nunca sorria, sempre de testa franzida. Passava pela casa a caminho da praça no alto do bairro. E por lá ficava por um tempo, imóvel, olhando  o sol cair sobre o rio. Quando foi saber da mãe sobre ela, ouviu sem entender:

“- Tem pessoas que não conseguem chorar. Estão condenadas à tristeza…”.

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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