Inspirada pelo debate, gostaria de revelar um desejo: reproduzir os cadernos de um mestre, assim como estão, em forma de livro. Suas letras vermelhas e verdes em páginas que as turmas cobiçam. Cada um quer guardar na memória, sem ser notado, pelo menos uma daquelas páginas. Porém, os olhos ficam arregalados, as bocas entreabertas e os rostos iluminados pela lâmpada da escrivaninha onde se acomoda a pequena amostra de dezenas de slides, rigorosamente catalogados. Assim escutamos também as explicações (não escritas) e nos esforçamos para guardar as referências, as descrições e os freqüentes pedidos para que nos deixemos levar pela linha e pela cor.
Quando escolhi voltar “aos estudos”, foi com esse exato objetivo. Conhecia aquele mestre de outras cátedras. Há 24 anos, exatamente, quando cursava a graduação de Licenciatura em Artes. E lembro bem daquela aula sobre o Bizâncio.
Deveria ser obrigatório ouvir todos os dias, se possível, vozes que falem de arte, seja escrita, exposta ou sugerida. Como Apreciar a Arte, um dos livros do mestre citado, traz esse espírito. E traz também a provocação originada da sabedoria. Aquela provocação com uma ponta de um sorrisinho debochado que estimula a vítima, ao invés de acabar com ela.
Só para ilustrar: na Páscoa que passou, conheci uma artista-designer. Ansiava por isso, devido aos debates nas duas últimas clônicas. Ela desenha objetos de uso médico. E à noite, semanalmente, trabalha no atelier. Luta com suas formas para alcançar a presença e a perfeição. Já havia lido, no Como Apreciar a Arte, a citação de Antonio Gaudí: “A ciência aprende-se com princípios; a arte com exemplos”. Aliada a testes, pode-se imaginar onde a arte é capaz de chegar. Estamos falando em design de produto, e, no caso de nossa artista-síntese, produtos destinados a perfurar o corpo, dilacerar tecidos, reconstituí-los, manuseá-los, tornando-os quase novos. Enfim, uma recriação com poder de cura.
E essa também é do livro citado: “Um biógrafo de Darwin revela que o cientista se preocupou seriamente com a diminuição de sua sensibilidade nos últimos anos. Quando jovem, ouvia música, lia poesia. Mais tarde, não suportava sequer Shakespeare”. E deve ser com essa mesma sensação de perda que se volta ao estudo da arte. Ou ao convívio com ela (desenhando à noite). Para continuar exercitando a sensibilidade. Em alguns casos, atiçando-a como ao fogo em brasa.
Livro citado: Como Apreciar a Arte: do saber ao sabor: uma síntese do possível/ Armindo Trevisan. Porto Alegre: Uniprom, 1999, 2a edição. 204p. Artista-designer citada: Tânia Luzzatto/ Imc: Instrumental Médico Científico

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