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Desfritando ovos

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“A alegria é mais sábia do que a sabedoria”.

Will Durant.

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Parece ser fato comum que escritores e poetas vejam seus textos e versos pirateados e republicados sem créditos nem respeito. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade,que era copiado sem dó nem pena,se sentia extremamente aborrecido.Por outro lado,Mário Quintana não se importava com a gatunagem, nem outra vítima frequente, nosso Luís Fernando Veríssimo.

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Recentemente, o suplemento literário do The New York Times listou dez autores que são vítimas frequentes de furto, plágio ou apropriação indébita. No topo da lista aparece o nome do humorista, cartunista e escritor Don Herold, falecido em 1966. Seu texto-poema Colha mais margaridas, publicado pela primeira vez em 1935, tem sido desde então plagiado em incontáveis variações e interpretações. 

Don Herold faz uma comovente reflexão de um homem que chega ao ocaso da vida sabe que não pode voltar no tempo. Enos diz o que gostaria de refazer, se lhe fosse dado viver uma segunda vez:

“- Claro que não se pode desfritar um ovo, mas não existe lei que proíba refletir no assunto”.

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O escritor inglês Gilbert Keith Chesterton escreveu que uma característica dos grandes santos é a virtude da leviandade. Lamenta que no mundo atual (ele escrevia nos anos 30) as pessoas preferem se ater à gravidade das situações e propõe imitar os santos e glorificar a leviandade. Mas tinha dúvidas:

” Não acredito que consiga mudar o credo das pessoas.A oposição é muito forte e existe gente séria tentando fazer com que nós fiquemos cada vez mais sérios”.

Infelizmente, Chesterton não viveu o suficiente para apreciar a leviandade em Don Herold:

“Se eu tivesse que reviver minha vida,

tentaria cometer mais erros.

Eu seria mais tolo do que fui.

Sei de muito poucas coisas que levaria a sério.

Eu seria menos higiênico. E iria a mais lugares.

Escalaria mais montanhas e nadaria em mais rios.

E comeria mais sorvete e menos farelos.

Eu nunca saía sem termômetro, cachecol, capa de chuva ou pára-quedas. Se tivesse que fazer de novo, viajaria mais leve.

Pode ser tarde demais para ensinar novos truques a um cachorro velho, mas talvez uma palavra de insensatez possa ser benéfica para as novas gerações. 

E iria ajudá-los a cair em armadilhas que evitei.

Se eu tivesse minha vida revivida, prestaria menos atenção às pessoas muito sérias.

Em um mundo de especialistas, vemos uma abundância de indivíduos que querem que levemos a sério 

suas especialidades.

Eles nos dizem o que devemos aprender, ou do contrário, seremos desgraçados, arruinados, reprovados e fracassados.

Eu gostaria que tivessem me vendido latim e história como brincadeiras.Eu iria procurar professores que inspiraram relaxamento e diversão. Felizmente, tive alguns assim e acho que foram eles que evitaram que me perdesse inteiramente.

Com eles, aprendi a colher as poucas margaridas

que encontrei ao longo do caminho.

Se eu tivesse outra vida para viver, começaria descalço 

um pouco mais cedo na primavera.

E ficaria assim até mais tarde no outono.

Eu mataria mais aula.

E atiraria mais bolas de papel nos professores.

Eu teria mais cachorros.

E ficaria até mais tarde na rua.

E teria mais namoradas.

Pescaria mais e iria mais vezes ao circo.

Eu dançaria mais vezes e andaria mais em carrosséis.

Eu viveria despreocupado por tanto tempo quanto pudesse, ou pelo menos até receber uma advertência.

***  

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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