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Desgarrado

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Quem não sabe, não sofre.”

Dito campeiro.

***

Naqueles dias, quando as tias falavam de parentes ausentes ou distantes, sussurravam como se fossem segredos proibidos. Eu não conseguia entender porque falavam de pessoas vivas como se estivessem mortas. Intrigado, passei a prestar atenção nas falações dos adultos, até que um dia, a mãe comentou que sentia pena dos “desgarrados” da família. E até usou a expressão usada no campo para designar animais que refugam o rebanho. De guri invocado, passei a guri curioso, ardendo de vontade de conhecer as ovelhas negras da família.

***

Me perguntava que pecados teriam cometido para serem tratados como estranhos no ninho. Fiquei rondando, escutando o que se falava na cozinha e nos galpões. Só queria entender porque as pessoas desertavam a casa paterna para enveredar pelo mundo afora. 

Não foi fácil. Aqui e ali, ouvia pedaços de conversas que mais me confundiam do que ajudavam. Mas, pelas tantas, peguei uma conversa sobre um certo desgarrado de cabelos e sobrancelhas cor-de-fogo. Deviam estar falando do Chiquinho Pacheco, primo meu, que era um guri ruivo apelidado de Foguinho. Eu lembrava dele, brincávamos juntos no verão passado, mas ele era diferente dos outros primos. Chiquinho andava pelos matos atirando de estilingue nos passarinhos e preás. Não ligava para cavalos nem gostava das lides do campo. E quando os Pacheco saíram da fazenda para morar na Vila das Dores, Chiquinho ficou sem saber o que fazer. Sentava em um banco da praça, olhando o vai-e-vem na delegacia de polícia, que ficava bem em frente.

O delegado Fagundes notou o interesse do guri e o chamou para ser menino de recados da delegacia. Esperto como era, ele logo estava organizando os prontuários dos presos. Depois, sugeriu ao delegado colar cartazes nas árvores, com recompensa em dinheiro para quem denunciasse os ladrões de gado. Como não havia dinheiro, nenhuma recompensa foi paga, mas as celas da delegacia ficaram lotadas. 

No ano seguinte, o delegado Fagundes foi promovido e Chiquinho Pacheco ficou como auxiliar de delegado. E não mais foi chamado de Foguinho, quando passou a andar com dois revólveres .38 na cintura.

Enquanto isso, no Passo Grande, ainda agouravam:

“As coisas nunca acabam bem para os desgarrados.”

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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