Branco. Fu leu essa palavra, outro dia, no jornal. Dizia que os jovens brancos eram a maioria das vítimas em casos de homicídios (dados do segundo semestre de 2003) aqui, no RS. Entrou em alerta. Algo estava errado. Dizer branco, para ela, por escrito, era admitir uma diferença muito radical. Mesmo cientificamente. Para ela, somos todos mestiços. F. Lana tinha essa mania de procurar sempre (e principalmente no jornal) algo de errado. Melhor lugar do que aquele, impossível. A pessoa treina em detectar problemas lendo jornal. No café. Chega a fazer falta. Do tempo de menina, Fu lembra de um jornal sobre o qual diziam que, ao apertar, saía sangue. E também lembra de outro, enorme, sobre o qual navegava, literalmente, sobre as letras, no chão da sala.
“Zero Hora faz quarenta anos”. A mensagem da semana. Afinal, durante toda a sua vida, uma menina chamada Laurinha lê o jornal. Fu Lana pensou se não valia uma pauta com aquela menina, que ficou na ponta dos pés para alcançar o microfone no dia do aniversário (lera isso na coluna do David Coimbra). E supôs: Laurinha deveria escrever também, no jornal, e nos contar como foi (ou era e é) essa convivência com a trajetória do newspaper, pelo menos na última década. Deu-se conta de que de tanto passar os olhos pelas letras, já estava pensando em forma de entrevista. Para Lana, o desejo de um jornalista seria sentar frente a uma pessoa e apenas perguntar. A resposta deveria ser sempre um libelo bem construído e publicável. Um prato pronto. Se a menina pudesse, certamente faria um quadro colorido da cena diária. Porém, a foto da pequena publicada no dia seguinte à festa*, deu aquela corzinha à vida naquele dia branco.
Fu Lana detestava dias chuvosos. Principalmente quando as goteiras estavam em sua casa e quando os pensamentos também pingavam. Resolveu pensar em outra coisa. Pensar no texto de Erico Verissimo em O Continente, cuja leitura estava terminando por aqueles dias. Fu Lana queria ter sempre por perto capacidades como as daquele autor, capaz de contar a vida cotidiana, costurando épocas tal qual em um trabalho de cerzir daquelas mulheres personagens gaúchas. E homens tão variados que pareciam seres-contas naquela colcha. Seria Erico, uma mulher? Ela, a leitora, é que era uma mulher. Fu Lana resolveu desistir de tentar entender o mundo de hoje, os registros de ontem, as obras de amanhã. Colocou as botas, bateu a porta e (oigalê!) saiu.
*Foto de Carlinhos Rodrigues/ZH

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