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Estávamos Eliete e eu saindo do teatro em Florianópolis quando nos surpreendemos com o casal à frente. Era sábado de verão, e estávamos felizes logo após assistir ao espetáculo musical que festeja a autobiografia de Rita Lee, interpretada de forma convincente pela gaúcha Mel Lisboa. São duas horas e 20 minutos de um espetáculo de verdade, com músicas ótimas e provocativas, texto inteligente e interpretações seguras e afinadas.

Há cenas marcantes, como a de Elis Regina visitando Rita na prisão, ou a de Gilberto Gil convencendo os Mutantes a correrem o risco de serem vaiados em um festival ao interpretar Domingo no Parque, ou ainda a da impagável Hebe Camargo recebendo um selinho de sua atrevida convidada no programa de tevê. Não faltam cenas divertidas, como a de Raul Seixas bancando o cupido para Roberto de Carvalho, que viria a ser o eterno companheiro da rainha do rock. O que ela contou em livro está lá, recriado de forma brilhante e criativa em um belo espetáculo musical.

Bem, terminado o show, vamos em direção ao estacionamento e lá seguia o casal, ele um cara com cerca de um metro e noventa, ela talvez uns 25 centímetros a menos, mãos dadas, sem diálogo. Eliete observa e me chama a atenção: Olha só, o cara é um manezinho raiz, vem ao teatro na boa, de bermudas e chinelos. Olho e concordo na hora, o cara é mesmo o rei da informalidade. Os chinelos parecem comuns, muito comuns, a bermuda bege clara se assemelha àquelas que geralmente se usa em casa, e a camiseta em tom semelhante não fugia ao conjunto, era daquelas que se usa em um domingo descontraído ou mesmo em uma quadra de tênis.

O cara chama a atenção por outro motivo. Ao andar, manca levemente, revelando alguma dificuldade no quadril, embora ainda desfrute de uma idade invejável, na casa dos cinquenta anos. Os cabelos estão começando a pratear, e o físico indica ser alguém que se cuida, magro na medida certa, sem gordura aparente.

Começo a desconfiar que conheço a peça, e a desconfiança vira certeza quando ele se vira de lado para conversar com a companheira. Bingo, é o Guga. Sim, Gustavo Kuerten, o ex-tenista número um, ainda hoje com prestígio e influência em eventos esportivos como Roland Garros e que fazem com que seja um embaixador de marcas e apoiador de causas sociais.

Pois ali está ele, circulando e vivendo como um cidadão comum. E o caminhar com dificuldades evidencia como foi cruel o quadril que o tirou das vitórias nas quadras tão cedo, no auge de uma carreira espetacular. Três cirurgias, duas durante a carreira e uma após a aposentadoria, parecem não ter dado o resultado que Guga esperava, e tento imaginar se ainda precisa se tratar das dores, além dos problemas de articulação, evidenciados pelo caminhar atípico.

Ele não compete nem joga tênis profissionalmente devido às limitações físicas, mas segue muito presente no ambiente esportivo e na mídia. E, pelo que vi, na área cultural também. Valeu, Guga.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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