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Tem sentido um cidadão do mundo como Elon Musk ostentar uma fortuna estimada em um trilhão de dólares? Um único cidadão, uma pessoa possuir um valor como esse, equivalente à metade de tudo o que um país como o Brasil produz durante um ano inteiro? 

Qual é o impacto de tudo isso, difícil estimar. Mas um cálculo simplista mostra que se uma pessoa gastasse um milhão de dólares por dia (ou cinco milhões de reais todos os dias!), ela levaria 2.739 anos para gastar este trilhão de dólares. Em termos físicos, são 10 bilhões de notas de 100 dólares. Que, empilhadas, chegariam a 1.100 quilômetros de altura. Para encerrar estas comparações enlouquecedoras, outro dado humilhante: um trabalhador de classe média no Brasil, com uma renda familiar de 100 mil reais anuais, precisaria trabalhar 50,7 milhões de anos para acumular 1 trilhão de dólares.  

O economista André Lara Resende analisa na revista Piauí como essa situação pornográfica é explosão de riqueza financeira. O mito da riqueza como resultado do trabalho e da competência não tem mais como se sustentar. Ele lembra que os analistas convencionais consideram que, muito além das razões usualmente invocadas, como falhas de governança, a explosão do endividamento público é uma grande ameaça porque, atenção, “tem como contrapartida uma concentração de riqueza financeira incompatível com a democracia”.

É quase óbvio, não é? Grandes fortunas influenciam eleições e a produção de leis, uma realidade cruel, em que uma franca minoria supera a vontade da maioria. A cidadania, coitada, é violentada por esta, vale repetir, situação pornográfica. 

Enquanto isso, os comuns mortais rebolam para sobreviver. Outro dia, jornalistas da NSC TV, a antiga RBS TV de Santa Catarina, estavam se queixando do salário ao vivo. Começou com Cristiano Gomes, repórter competente, que saudou a sexta-feira assim ao entrar ao vivo no Bom Dia Santa Catarina: “Sextou! Não sei se vocês olharam na conta de vocês, mas o salário caiu, viu? Graças a Deus! Mas, no meu caso, ele caiu e já saiu, de uma maneira muito mágica. Ele só foi… mas tudo bem. Vamos que vamos!”.

A descontração seguiu com o colega Douglas Márcio, que apresentava o programa. Não perdeu a chance e seguiu na mesma toada. “Por 30 dias”, disse. E logo acrescentou: “O salário pingou e já saiu. Com o que sobrou,a gente sobrevive”. E vida que segue…

O projeto de lei que busca criminalizar a incitação à violência contra a mulher, chamado de PL da Misoginia, passou a tramitar em regime de urgência, o que significa que deve ser votado logo, sem necessidade de passar por comissões. O objetivo do projeto é incluir na Lei do Racismo os atos discriminatórios e de menosprezo contra a mulher. Caso aprovado, a misoginia passaria a ser considerada crime inafiançável e imprescritível.

Pois, acredite, a despeito da nobreza e da importância da proposta, 11 dos 16 deputados federais catarinenses votaram contra a adoção do regime de urgência para a votação da matéria. A deputada Júlia Zanatta, expoente do PL catarinense, aquela mesma que usa permanentemente na cabeça uma coroa de flores, despontou entre os que votaram contra. Usou o microfone da Câmara para defender que o momento atual “não seria o ideal” para discutir o tema. Como se existisse um momento mágico para que se adotem medidas contra a misoginia…

E tem mais esta novidade que merece reflexão: na Polícia Federal, Santa Catarina está sendo chamada de “resort do crime organizado”. Os antecedentes recentes que levam a isso são da semana anterior à Páscoa, quando a PF fez operações por aqui. Prendeu Gilmar da Hora Júnior, liderança do Comando Vermelho, que estava em um apartamento com vista para o mar em Balneário Camboriú. Quase ao mesmo tempo, capturou em Joinville um traficante internacional foragido da Justiça.

A PF desenvolve desde o ano passado a chamada Operação Carbono Oculto, que busca desarticular a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado financeiro e no setor de combustíveis. Pois nas últimas semanas os policiais se dedicaram a investigar a venda de dezenas de apartamentos de luxo também em Balneário Camboriú. Preocupante, não? A ação desencadeada para mirar ações criminosas do PCC encontra ramificações vergonhosas em território catarinense.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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