Colunas

Diga-me com quem andas…

Semana passada, escrevi que, por questão de nível – e por higiene mental –, há muito excluí Sua Excelência, o presidente, dos meus pensamentos, …

Semana passada, escrevi que, por questão de nível – e por higiene mental –, há muito excluí Sua Excelência, o presidente, dos meus pensamentos, escritos e referências.

No tempo que perdi ocupando-me e escrevendo sobre esse paradoxo falante, alguns conhecidos e amigos que prezo muito, conhecendo minha trajetória como homem de teatro, jornalista e cidadão, insinuaram que eu estava violentando o meu passado.

Jamais respondi, pois assim como respeito opiniões contrárias às minhas, respeito a amizade e, mesmo  sem discutir, não transijo quanto à honra.

A indecência deslavada – a inusitada defesa que Sua Excelência fez de Renan Calheiros e de Severino Cavalcanti – quebrou o meu silêncio. Sinto que está na hora de explicar-me.

Continuo coerente e, como sempre, desvinculado de qualquer partido.

Acontece que idéia ou ideologia alguma vai me colocar ao lado de Sua Excelência e de tudo que me dá náusea na condição humana. 

Quando Lula e Collor foram adversários, votei em branco, pois sabia do Collor como prefeito de Maceió. Lula, na época, eu achava, além de sinônimo de atraso, o chefe de uma caravana corporativista. Agora sei de coisas muito piores, inclusive algumas ignóbeis.

O PT já teve excelentes quadros, como César Benjamin e Gabeira. Nas últimas eleições, votei num que também já pedira o chapéu, Cristovam Buarque. Votei naquele que achava apto a governar, por mais simbólico que fosse o meu voto.

Nas últimas eleições, já se sabia que tínhamos um presidente que não sabia. Quando revelados os fatos criminosos ao seu redor, alegou-os não sabidos. Quando sabidos, confessou-se traído. Hoje, afirma irrestrita amizade aos ditos traidores.

Declaro que sou absolutamente contra Sua Excelência.

Isto de ser contra uma pessoa ou um político não significa ser a favor da maioria de seus adversários. 

Fiquemos na lógica formal: sou contra a pessoa que ocupa a presidência, sem qualquer inferência à minha postura política que, no caso brasileiro, quase nem existe mais. Sou um auto-exilado político e contra a Sua Excelência.

Não há elitismo nessa minha posição contra Sua Excelência. Nada a ver com sua compacta ignorância, culpa maior do país em que nasceu.

Sou contra esse camelô de si mesmo, sou contra essa imodéstia itinerante, esse improvisador de um discurso para cada platéia, sou contra essa grosseira empáfia do insistente proclamador do “Nunca antes…”.

Eu achava e acho que, em países onde imperam a pobreza, a miséria e a total inoperância quanto à educação, ser de esquerda e lutar por uma divisão de renda com um mínimo de decência, mais que postura ideológica é uma postura ética. No caso, ser de esquerda não é uma filiação partidária ou um compromisso partidário.

Muitas vezes, é difícil alegar que os meios justificam os fins quando nem os fins são justificáveis.

Sua Excelência, discursando na Federação das Indústrias de São Paulo, vomitando no prato que comeu e o elegeu, afirmou que, após uma certa idade, quem continua de esquerda está com problemas mentais. Esse é o caráter da Sua Excelência que preside o país. Que a História lhe seja pesada.

Quanto a muitos amigos, pessoas extraordinárias, entendo a oposição ao neoliberalismo e aos reacionários de direita. É uma oposição histórica. Acontece que, no meu ceticismo como cidadão, não consigo mesmo é excluir a náusea por essa coisa aí, náusea que transcende a ordem política e decorre do que mais baixo existe na natureza humana.

Inté.

Em tempo:

Minha defesa radical – pela imprensa e no teatro – dos não-favorecidos fez-me cassado pela Ditadura. Torturaram colegas meus e o então jovem repórter José Antonio Ribeiro, o Gaguinho, foi preso e espancado na tentativa de descobrirem onde eu estava.

Amigos inda vivos continuam de esquerda com a mesma sanidade mental e integridade de caráter.

Na manhã de 2 de abril de 1964, a polícia chegou à minha casa antes de mim. Escondi-me, a Ditadura obrigou-me a mudar de cidade e roubou meu emprego. Isso eu provo de forma factual, consta em livros de diversos autores e eu poderia estar recebendo uma indenização do Estado, como milhares de outros. Nunca requeri essa retratação em dinheiro, mas continuo vomitando sobre os mortos e vivos que transformaram, naquela época, o Brasil num Estado assassino.

Imagem

Autor

Mario de Almeida

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.