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Divagações durante o FSM

Um relatório é o que se escreve sobre algo. Aqui, no FSM, o clima é de solidariedade. Na mesa, entre centenas de debates, um …

Um relatório é o que se escreve sobre algo. Aqui, no FSM, o clima é de solidariedade. Na mesa, entre centenas de debates, um ministro parecia aquela mosca do bufê, que a gente afasta e ela fica zunindo.

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Portoalegrismo. Um neologismo do Fórum de Porto Alegre.

Os pensadores disseram

– A utopia está além e é o futuro.

– No passado, estão as marcas tenebrosas das utopias do mal. Hoje, as utopias do mal estão em nós.

– A palavra é mesmo uma desgraçada. Pode-se dizer o que quisermos com ela e com ela mesmo negá-la.

– Existe uma besta em nós e precisamos dominá-la.

– Eu sou ateu. Não acredito nessas coisas. Subjetividade é o que existe.

– A utopia é a necessidade. Se passamos por necessidades, temos utopias, horizontes, metas.

– Caminho só se faz ao andar, isso já aprendemos. A utopia é a direção a ser tomada. Nunca a alcançaremos, porém ela sempre estará lá.

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Einstein dissera: tudo é relativo. Tudo é subjetivo, diz hoje José Saramago. Um foguete chamado Quijote foi lançado a Davos.

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No FSM 2005, os representantes do Governo Lula aparentavam pró-atividade. Com um sorriso nervoso, aceitavam as críticas e alguns, provocações. Em debates como no Fórum Permanente em Defesa do Rio São Francisco, nem houve representação. A massa se levantava ali, e ao que parece, com toda a razão.

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Mallorca.

Um povo que mora em uma ilha onde o maior problema é a exploração de seu território por uma indústria imensa e destruidora: o turismo. No documentário apresentado sobre a luta em Mallorca lia-se: Auto-pista não! Quem ama Mallorca cuida e não a destrói.

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Comunicação:

Enquanto estava acontecendo um debate sobre a ética na televisão, o maior canal do país apresentava um enlatado da pior qualidade. Antes disso, passava o Caldeirão do Hulk. Desrespeito direto.

No FSM, falava-se em liberdade de expressão com mecanismos de regulamentação. Não porque apenas se quer, mas porque os sinais de difusão de rádio e televisão são de propriedade do povo e concedidos pelo governo para uso.

A convidada do Canadá esclarecia que há 25 anos a propaganda para crianças e adolescentes na tevê havia sido proibida, pois assim os canadenses livram as suas crianças da exposição à exploração comercial. Elas ficam com o cérebro limpo.

No Brasil, a saída hoje é a vigilância do cidadão. Divulgue-se, portanto, que, primeiro, o conceito rádio e tevê é um bem público.

No Canadá, há um Conselho para a questão da difusão pública nacional e regional. Há um sistema para serem recebidas as reclamações do público e há necessidade de que a permissão a concessões seja renovada. A tevê, no Canadá, é uma das melhores do mundo. Além dessa situação de paraíso, o Conselho canadense ainda está atento à concentração de mesmos concessionários, pois com o monopólio não há possibilidade de haver diversidade de voz.

Voltando ao Brasil, o caminho otimista é de que no âmbito da legislação, foi retirada a idéia da criação de uma agência reguladora em nome da causa maior de se abrir o leque desse projeto de regulamentação.

A visão pessimista, no entanto, fica com a idéia de que não há disposição política deste governo para modificar as leis de radiodifusão, que são de 40 anos atrás.

Um exemplo de reação à mídia foi dado por um dos palestrantes:

“Hugo Chavez sofreu um golpe midiático. Era chamado de Macaco, no ar, mas com a movimentação das massas reverteu a situação. Aqui, no Brasil, a violência é mais terrível, porque sub-reptícia. A despolitização é feita de modo mais eficiente, portanto bem mais prejudicial. Além disso, existem programas de comunicação da Rede Pública no Brasil, mas esses canais não pegam no interior de cada Estado brasileiro. E é ali, no interior, que se escolhe o canal que tiver “menos chuvisco”. A defasagem técnica atrapalha também, o avanço da informação.”

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No campo prático da discussão, o Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (7a. Região) oferece ao público, em seu Banco Social de Serviços, a Campanha contra a Baixaria e recebe denúncias do público sobre o que pode estar causando impacto na construção da subjetividade.

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No Fórum Social Mundial, havia cerca da sete mil jornalistas. O povo foi mais de 150 mil participantes. Como se fôssemos um bando de formigas vermelhas a picar um elefante, é preciso mirar em seu fraco. Se todas elas picarem ao mesmo tempo em seu ouvido esquerdo, terão chance. Acontece que, com as formigas, a comunicação é genética. Enquanto humanos, contamos apenas com a conexão atrasada.

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Mensagem de urgência aos que foram ao Fórum:

Não há como comunicar fora das grandes mídias. Os alternativos somam, mas não dão conta. A luta será lenta e estamos com pressa. Por isso, a orientação é falar aos cotovelos, escrever… Divulgue-se.

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Aprendi coisas hoje.

Que o Velho Chico poderá ser “transposto” em abril deste ano, se a população ribeirinha dos vários estados que ele atravessa não se levantar em peso contra mais esse crime contra a natureza. Por favor, senhoras e senhores, vamos nos levantar para defender o Velho Chico. Em sua parte sul salinizado, é cobiçado pelo latifúndio do Nordeste brasileiro. A pergunta que ficou na memória foi: se nem a única bacia, situada – toda sua extensão – em território brasileiro está sob domínio do Brasil, qual é a verdadeira situação? É a de que, realmente, Lula está entregando. E, enquanto a ministra do Meio-Ambiente enxugava as lágrimas, Lula divulgava no Fórum Econômico Mundial, em Davos, que no Acre há recursos minerais no solo e que ali há uma ponte sendo construída como saída para o Pacífico. Venham todos!

Também ficou no ar a orientação de que é necessário pressionar por dentro do Governo Lula, onde a co-relação de forças é uma guerra. Por fora, porém, não há saída.

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Também no Fórum, a elite consome o que é mais saudável. O povo é que usa água do Guaíba e ela está contaminada. Muitos acampados ficaram doentes.

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No Dilúvio há peixes com duas cabeças e no manifesto ecológico de alerta, em Porto Alegre, havia apenas 13 pessoas e um batalhão da Brigada Militar. Haveria caiaques. Nove mil panfletos foram rodados com apoio da Câmara e EPTC. Um apoio solidário. E o trabalho dos ativistas é, acima de tudo, solitário. São Quijotes, com certeza.

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Alguns voltam emocionados para suas casas. Boa luta! Foi bom demais estar ali onde surgiu o portoalegrismo, sinônimo de resistência com energia, organização, ousadia, conhecimento e coragem. É um bom termo. E, além disso, a palavra socialismo não cola mais.

O Fórum também foi louco. Louco no sentido utópico, porque não perdeu a vontade de ser realidade. Foi um exercício de cidadania e veio para ficar na mente e marcar as ações dos habitantes do mundo no século XXI.

[email protected]

Autor

Clo Barcellos

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