Colunas

Do Presidente para o Prefeito

Reler jornal antigo sempre traz alguma surpresa, ou tem uma manchete tão atípica quanto surpreendente, o que nos leva a tentar imaginar como teria sido aquele fato para merecer um destaque. Como este, relatado pelo jornal O Globo na década de 1940:

ESPERADA UMA SOLUÇÃO DA NOVA CRISE DO PÃO, DE ACORDO

COM INSTRUÇÕES DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA AO PREFEITO

Que tal tentar imaginar o que se passou para que um presidente se dirigisse a um prefeito? A partir da cena inicial, tudo poderia muito bem ter sido mais ou menos assim:

Quando o auxiliar se aproximou e sussurrou que o presidente da República estava do outro lado da linha, o prefeito empalideceu. Primeiro se espantou, depois pareceu nervoso, impactado pela informação. Olhou para os lados, estavam ali os dois secretários municipais e a meia dúzia de assessores. A pauta era ditada pelas ruas: tratava da crise que tomara conta das atenções devido ao descontentamento geral com a falta de pão na cidade. 

Pediu para a plateia se retirar sem refletir se poderia necessitar do auxílio para atender uma eventual demanda presidencial. Em segundos levantou meia dúzia de hipóteses que poderiam ter levado o presidente a falar com ele.  Começou a suar frio, e esboçou um sorriso ao imaginar que poderia estar vindo ali um convite para algum cargo público federal, por que não? Dera várias manifestações de fidelidade ao governo, e considerava que a população mais aprovava do que desaprovava sua administração, embora a única forma de realizar tal medição estivesse baseada nos tapinhas nas costas e nos apertos de mãos que fazia questão de distribuir ao longo de todo santo dia.

Perfilou-se, como se tivesse uma câmera a exibir sua imagem para o interlocutor no outro lado da cidade, mas o sonho se esfumaçou ao ouvir a primeira frase. Nada de convite, nada de afago. A voz do outro lado, seca e nada cerimoniosa, trazia uma cobrança crua e direta. Como é que o prefeito deixara a cidade chegar ao ponto de ficar sem pão!? Como conseguia conviver com uma crise causada por um alimento tão trivial, tão comum, tão presente na vida de todo ser humano? Fora eleito, lembrou a autoridade maior, para resolver os problemas da cidade e dos cidadãos, e era incompreensível a forma como se deixava dominar pelo alimento mais simples do planeta. Era mesmo um vexame tropeçar justamente na farinha.

Este era o fato: o pão, esse alimento universal, o mais antigo prato de refeição do mundo, transformara-se no epicentro de uma insatisfação que beirava a revolta pública. Estava em todas as manchetes dos jornais o problema causado pela falta de farinha de trigo e o consequente quase sumiço do produto. O descontentamento do povoeiro só crescia e cidadãos de todas as classes sociais tomaram as ruas em protesto.

Não precisou o presidente detalhar os fatos mais do que conhecidos e que já ribombavam pelo país. O que fez foi lembrar que o episódio estava desgastando a imagem do prefeito e já respingando no prestígio do governo federal. Afinal, eram correligionários, não faltavam registros fotográficos captando afetuosos abraços entre ambos.

O prefeito não teve tempo para dizer nem a nem bê, até porque o presidente estava impaciente e despejava as orientações: já havia determinado ao ministro da Agricultura a liberação imediata de parte dos estoques reguladores de farinha em quantidade suficiente para deixar o mercado abastecido. E em tom professoral, feito sermão, determinou: “Fale agora mesmo com a imprensa e salte na frente deles, diga que pediu ajuda a mim, e que eu prontamente resolvi tudo. Em dois dias no máximo o pão estará garantido. Entendeu bem?”.

Tivesse transmissão de imagem naquele momento o prefeito seria flagrado desabando em uma cadeira. Mas logo se deu conta de que precisava seguir em frente e resolver o problema mais importante do momento. Só com a volta do pão no café da manhã é que haveria um final feliz. Feliz para o presidente e para os cidadãos. Não para ele, que ficaria com o carimbo de incompetente na testa somado à carga de desilusão com a inesperada falta de empatia do colega político.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.