Há pessoas que nascem para a hecatombe. Nas vendas e fusões comerciais, as especulações são livres, as grandes marcas engolem as mais fracas, as tradições são substituídas por novas perspectivas.
Conforme o sujeito, o mundo pode acabar, finalmente ir para a frente ou não mudar em nada. As previsões vão das trágicas às otimistas, passando pelas manifestações blasé dos que não acham absolutamente nada.
Depois da notícia da venda da Rádio e TV Guaíba para a Record, houve quem dissesse: já não era sem tempo. Pragmáticos, em relação à tevê principalmente, revelam a sensação de que finalmente irão acabar os condomínios-feudos ocupados por programas de gosto duvidoso, que são, no mínimo (para falar bem), pitorescos. A surpresa foi a Guaíba ter-se agüentado tanto tempo, ainda que a maioria dos profissionais de imprensa admitisse a precária e decadente qualidade da programação.
Para os hecatômbicos, a mudança é certamente para pior. Desemprego, muita religião e programas populares, no pior sentido da palavra, são as previsões deste lado da torcida, que prega terra arrasada.
Otimistas de plantão prevêem a qualificação da grade de programação, incentivo a talentos locais e novos investimentos no mercado. Boas sugestões aos novos donos.
No entanto, em relação à Rádio, as opiniões transtornam-se, comprometidas pela nostalgia do jeito Guaíba de dar a notícia, com aquela locução grave e mesmo démodé, que compunha uma grife, uma marca. Essa perda calará fundo. Assim como a Kibon, que deixou saudade nos gaúchos bairristas, a Rádio Guaíba será uma ausência sentida. Até os comerciais eram narrados na voz imponente e formal de seus locutores, que passavam dos fatos à descrição de sabonetes e fraldas para adultos, com a mesma entonação e ênfase vocal.
Os mais velhos, então, perderão a referência do próprio rosto no espelho, quando, todas as manhãs, faziam a barba ou preparavam o café, acompanhados de vozes da Guaíba. Sentiam-se de bem com as notícias, sentiam-se parte de uma comunidade, na rotina de suas trajetórias. O radinho ecoava pelas casas de classe baixa, média e alta. Já dizia Proust que o cinema nunca iria trazer o cheiro dos invernos e a falta do tom monocórdio da Guaíba será uma dessas impossibilidades irreparáveis. Quem vai substituir aquele espaço deixado nas arrancadas de mais um dia de luta honesta? Com quem os ouvintes farão a barba? Quem eles levarão para o café da manhã? Quem eles verão no espelho?
Esse leitor terá de mudar a identidade, mudar o tom e mudar a rotina. Para os mais velhos, isto é morrer.
Por isso, Fu Lana tem medo de se apegar a qualquer coisa. Sejam animais de estimação, rádios, companhias de celulares, hábitos que podem matar o monge. As piores perdas são bruscas e inesperadas. A fidelidade traz riscos e Fu Lana pretendia não ser atingida por essa mudança que se apresenta no horizonte da comunicação do Rio Grande do Sul. Infelizmente, não está imune aos tremores de terra.
Então, lamenta. Que uma potência deixe de existir por apostar na mesmice, no chato, no mal feito, achando que ninguém iria notar que a cidade cresceu e que a vida hoje é completamente diferente. Quem trabalha em contato com pessoas, deixa de ter responsabilidade apenas comercial. Deve responder pela vida cotidiana e pelo sentimento de solidariedade que gera em torno de seu produto.
Todo mundo estava vendo que a qualidade estava caquética, mas ninguém teve coragem de mudar. Preferiram vender. Entregar os pontos dá menos trabalho. Exige menos da mufa. Diachos. Agora, se foi o boi com a corda.
Dizem que seremos menos gaúchos em 2024. Pudera, estamos perdendo até o sotaque!
O tempo do êpa está em nossos calcanhares. Empresas novas ganham a memória recente e cativam as novas décadas. Fu Lana não vai assistir nem ouvir. Fará a greve silenciosa dos que não opinam: os pobres consumidores. As pessoas não podem perder seus empregos, perder suas rádios, suas vozes entoadas e fúnebres. Elas têm direito ao que se afeiçoaram.
Já ensinou a zilhões de gerações o Pequeno Príncipe (as misses que o digam): você é responsável pelo que cativas. E é só por isso que a indignação de nossa heroína tragicômica vem à tona. Pelo direito de viver com o que se escolhe, seja um tipo de picolé, uma rádio, uma tevê ou um cantor preferido (e ai dele se ele morrer!).

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